Terça, 21 de Agosto de 2018 |
Entrevista | Francisco Amaral

15:07 - 17/04/2017     4776 visualizações CASTRO MARIM
Atualizado em: 17/04/2017
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Em entrevista ao jornal «A Voz do Algarve», Francisco Amaral, conceituado médico e atual Presidente da Câmara Municipal de Castro Marim, faz hoje um balanço do seu mandato à frente desta Autarquia, assim como analisa o desenvolvimento das próximas eleições autárquicas.

V.A. - Após 5 mandatos autárquicos em Alcoutim, aceitou o desafio de se candidatar, em 2013, à autarquia de Castro Marim. Fale-nos, em primeiro lugar, do trabalho desenvolvido em Alcoutim.

F. A. - Em Alcoutim, deixei uma casa arrumada, com três polos urbanos importantes. Alcoutim, Martim Longo e Balurcos. Em Marim Longo criei um complexo constituído por escola, pavilhão e piscina e lancei o lar de 3ª idade. Criei condições para o primeiro investimento na área da energia solar, que vai ter agora um segundo grande investimento.  Em Alcoutim fiz o Quartel dos Bombeiros, o Centro Náutico, o Pavilhão Desportivo, o relvado sintético no estádio, o Centro de Apoio ao Desenvolvimento, a Casa dos Condes, valorizei o Castelo, ampliei para o dobro a capacidade do Lar, fiz a Praia Fluvial de Alcoutim, uma Estalagem, vários cais acostáveis com arranjos paisagísticos na vila, em Guerreiros do Rio e Laranjeiras e lancei ainda as obras dos novos Paços do Concelho e do Espaço Guadiana. Nos Balurcos, além do saneamento básico, fiz um parque empresarial, um lar de idosos, etc.

Por todo o concelho tinha estradas e arruamentos condignos. Tomei várias iniciativas na área da saúde, ação social e cultura, pioneiras no país, que mais tarde foram copiadas por outros municípios, como, por exemplo, a Unidade Móvel de Saúde, campanha de vacinação, operações às cataratas, cinema móvel etc.

Tinha também uma centena de povoações dispersas pela serra e todas as casas tinham água domiciliária potável. Não tinha processos na barra dos tribunais. Alcoutim tem o dobro da área de Castro Marim. Em suma, eu diria que tinha uma casa arrumada.

 

V. A. - Chegou a Castro Marim e…?

F. A. - E vi boa gente, mas vi uma câmara carenciada de recursos humanos, de equipamentos, de viaturas, a divisão de urbanismo não dava resposta útil e atempada às solicitações, dezenas de processos na barra dos tribunais, 57 povoações com fontanários de água não potável. No verão, nem nos fontanários havia água. Eu diria, situações terceiro-mundistas. Vi estradas e arruamentos degradados ao máximo, sem sequer haver projetos de pavimentação. Por exemplo, na vila de Castro Marim há uma rede de água e esgotos completamente obsoleta, com mais de 50 anos, sem sequer projetos de renovação da rede… e isto tudo numa grande crise instalada no país, em que tivemos de acudir a situações flagrantes de carência familiar.

 

V. A - Quando chegou a Castro Marim, qual foi a primeira impressão política?

F. A. - Reparei que uma grande parte da população estava alheada da vida política e partidária e conclui que tinha razões para tal. As cúpulas partidárias envolvidas em guerrilhas constantes, acompanhadas de muita intriga, cusquice e constantes jogos políticos e politiqueiros de bastidores que não interessam a ninguém. Sobrava pouco tempo para fazer algo de útil a este concelho. A esmagadora maioria do povo de Castro Marim é boa gente, gente de trabalho, gente com princípios e valores, que não se identifica com este clima de guerra e de ódios constante.

 

V. A. - Completou em outubro de 2016, 3 anos de mandato como presidente da câmara municipal de Castro Marim. Qual é o balanço?

F. A. - Foram 3 anos muito difíceis. O país em plena crise. A nova lei das finanças locais, que muito limita a autonomia financeira dos municípios. As câmaras impossibilitadas de meter novos funcionários. Um desemprego avassalador, a que tivemos de acudir com protocolos com as IPSS para atenuar esse efeito... Mas, apesar de todas as dificuldades, temos feito, como o povo diz, “das tripas coração”. Claro que canalizámos as nossas atenções para a satisfação das necessidades básicas da população. Para mim, foi angustiante quando me apercebi que 57 povoações ainda eram abastecidas de fontenários. Neste momento, apesar de todos os constrangimentos, já colocámos água numa dúzia de povoações.

Nas obras realizadas, salientaria a estradas de Fortes, a Casa do Sal, hoje polo cultural por excelência no concelho, o Edifício Multifuncional de Empresas, a requalificação do Mercado Municipal de Altura, a requalificação do mercado local de Castro Marim, o cais acostável de Castro Marim, que estava de costas viradas ao Guadiana, as pavimentações de estradas e arruamentos na Praia Verde, na vila de Castro Marim, Junqueira, Quinta do Sobral e, já em concurso, os arruamentos em Monte Francisco.

 

V. A. - Que novos projetos mandou executar?

F. A. - Projetos de pavimentação para as estradas e arruamentos mais degradados, projetos de ciclovias a ligar a sede de concelho a Vila Real de St. António, a Altura, ao Monte Francisco e à Junqueira, dois parques de autocaravanismo em Altura e Castro Marim, a Praia Fluvial de Odeleite, o Memorial a Paco de Lucía em Monte Francisco, a abertura da Porta Este no Castelo, habitação social de Altura, Lar de Altura (iniciativa da Cegonha Branca), arranjo paisagístico do Cais da Foz de Odeleite, etc.

 

V. A. - O novo QCA?

F. A. - Como sabe, iniciou-se no país com 2 anos de atraso. Só agora está a começar e já temos garantido o financiamento de algumas obras, como os 4 milhões de euros para a colocação de água em 29 povoações, a praia fluvial de Odeleite, o parque de autocaravanismo, pavimentação de arruamentos em Monte Francisco.

 

V. A. - A relação com os clubes, associações?

F. A. - Quando se respeita e se é empático com os outros, só podemos ter boas relações. Não falo de cor, tive vários anos à frente de um clube e de uma IPSS e portanto sei bem das dificuldades que essas instituições têm. Considero-as parceiras imprescindíveis de uma autarquia, para o desenvolvimento de uma sociedade nas mais diversas áreas. Reconheço que a maioria dos dirigentes associativos são carolas que trabalham de um modo gratuito para os outros e para a sua terra. Para mim, essas pessoas têm muito valor e contarão sempre com o meu apoio. Em Castro Marim temos exemplos fantásticos.

 

V. A. - Falemos de si. O que o motiva?

F. A. - Olhe, interesse pessoal não é de certeza, porque não tenho aqui qualquer património e aufiro o mesmo. Estou reformado há vários anos e o valor da minha reforma é idêntico ao vencimento como autarca e não acumulo. Sou feliz quando ajudo as pessoas e é isso que me motiva. Tenho dois “bichinhos”, o exercício da medicina e o do poder local, sempre como uma maneira de servir os outros. Para além de reconhecer que Castro Marim é uma terra com um grande potencial que vai do mar à serra e que tem um grande futuro. Penso que, com a minha maneira de ser e de estar, na vida e na política, e com a experiência acumulada como autarca, posso contribuir para o desenvolvimento desta terra.

 

V. A. - Ainda vai às quintas-feiras ao Hospital de Faro?

F. A. - Desde que fiz o meu estágio no Hospital de Faro, na década de 80, ainda não sonhava ingressar na vida política, nunca mais me divorciei do Hospital. E, religiosamente, estou lá todas as quintas-feiras em regime de voluntariado. Durante muitos anos fiz serviço de urgência. Agora, nos últimos tempos, limito-me a visitar doentes internados por solicitação de famílias, amigos e médicos de família e a falar com os colegas do hospital sobre as situações encontradas. Reconheço que é muito importante uma palavra de afeto e de esperança numa altura difícil da vida das pessoas. E há situações tão difíceis e tão complicadas… sou muito feliz quando dou esse apoio.

 

V. A. - O que sentiu ao ser agraciado como Comendador da Ordem de Mérito pelo Presidente da República e, mais recentemente, ao ser homenageado em Alcoutim, no Dia do Município, a 9 de setembro último?

F. A. - Na altura foi-me transmitido pelo Presidente da República que seria o reconhecimento pelo trabalho desenvolvido em plena serra algarvia para uma população idosa, desfavorecida e com muitas limitações. Tomei várias medidas pioneiras no país, na área da saúde e ação social, que mais tarde foram copiadas por outros municípios. Por exemplo, a Unidade Móvel de Saúde, campanhas de vacinação contra a gripe e pneumonia, transporte para realização de exames auxiliares de diagnóstico e consultas de especialidade, operações às cataratas, etc.

A homenagem prestada em Alcoutim pelo meu sucessor, que é de outro partido político, teve para mim um grande significado. Claro que também me sensibilizou, foi o reconhecimento de um trabalho desenvolvido durante 20 anos à terra que me viu nascer.

 

V. A. - Como reagiu em outubro, quanto à retirada de confiança política do PSD de Castro Marim? Pensa que isso pode influenciar negativamente o seu resultado eleitoral, agora, já como candidato oficial do PSD?

F. A. - Não me preocupei nada porque nunca senti qualquer apoio do PSD de Castro Marim e só retira quem alguma vez deu, o que não é o caso. Por detrás disto está o meu antecessor, que quer voltar e, pelos vistos, não olha a meios. Agora eu tenho um trabalho a meio, que foi sufragado pelos castromarinenses e preciso de mais 4 anos para o terminar. E vou conseguir. O resultado das últimas sondagens, dão-me uma vitória expressiva sobre qualquer candidato. Não estou nada preocupado com os ataques de baixa política e intrigalhadas de bastidores das minhas oposições, seja externa ou interna. Isso vale o que vale. Sinto que tenho o apoio da grande maioria da população.

 

V. A. - Que perspetivas de desenvolvimento económico?

F. A. - Castro Marim tem um potencial enorme do qual há que tirar a máxima rentabilidade. A proximidade do mar, com praias das mais lindas do país, um clima fantástico, a hotelaria, restauração e pequenos produtores, com empresários que necessitam de ser acarinhados e não obstaculizados, a proximidade de Espanha, com milhões de andaluzes aqui à porta, o sal, a reserva natural, o rico património histórico, cultural e etnográfico, a beleza natural e, acima de tudo, a boa gente que este concelho tem. Todas estas áreas necessitam de ser cada vez mais dinamizadas, pois todas são geradoras de riqueza, de emprego e de qualidade de vida desta boa gente.

 

Por: Nathalie Dias

 

 

 
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