Joaquim Bispo, escritor diletante, http://vislumbresdamusa.blogspot.com/
(Anteriormente: Um visitante, disponível para análises visuais, estranha a posição do braço esquerdo do retratado.)
Continuação: Então, reparando com atenção, percebe dois ou três riscos curvos à frente da ponta do indicador da mão esquerda, recurso muito utilizado pela banda desenhada para sugerir movimento. O dedo abana lateralmente. Indica um “não”. O visitante, em alerta, recupera instantaneamente uma frase marcante do PREC: “Olhe que não! Olhe que não!”
O olhar descobre agora que a cor da manga esquerda é diferente da do restante fato. A convicção instala-se: o aparente braço esquerdo de Soares, não é um braço dele; é de Álvaro Cunhal. O retrato, mais que marcar para a posteridade a fisionomia de Mário Soares, lida pelo artista, plasmou um momento marcante da história de Soares e do país, quando os dirigentes dos dois partidos mais poderosos se enfrentaram perante as câmaras da RTP em 6 de novembro de 1975 - fez agora 50 anos. Soares acusava Cunhal de pretender a instalação no país de um regime ditatorial comunista, ao que este respondeu daquela forma que entrou nos ditos populares e que Pomar - o maroto do Pomar! - fixou em pintura. O quadro fala.
Soares foi muito importante em vários aspetos da vida política do país, mas vencer o Partido Comunista em 75 foi a sua coroa de glória, pela qual foi glorificado interna e externamente. Não custa admitir que o próprio Soares gostou de se reconhecer e ser imortalizado naquele episódio, se é que tomou conhecimento ou consciência dele no quadro. Como não? Pomar e Soares foram amigos desde que, presos pela PIDE, foram companheiros de cela em Caxias, em 1947.
Que outras ressonâncias - se não de verdade, pelo menos de verosimilhança -, o maroto do Pomar nos mostra ainda, ao organizar o retrato daquela maneira? Que o partido de Cunhal era uma força ameaçadora daquele lado do hemiciclo/cadeira. Aquele leão, de sobrancelhas grossas, não deixa dúvidas.
E que Soares, mesmo no auge da luta política, não se vira para o seu adversário; exibe-se para a câmara de televisão, para os espectadores, para os eleitores. Acentua o seu lado vaidoso, teatral. Neste sentido, o retrato de Soares, para além da representação fisionómica inconfundível e da fixação de um episódio político marcante, faz uma leitura psicológica do retratado. Maior completude não se pode esperar. Só lhe falta falar? Nem isso! Este retrato comunica muita coisa - praticamente, fala.

Presidente Mário Soares, de Júlio Pomar, 1992