A cobrança de bilhete para transportar carrinhos com quatro rodas na travessia de Olhão para as ilhas barreira da Ria Formosa começou a ser feita sem os moradores serem ouvidos, criticou fonte de uma associação local.
A nova medida prevê o pagamento de três euros para o transporte de ‘trolleys’ de quatro rodas, numa viagem só de ida, e de seis euros para ida e volta, abrangendo também os animais em transportadoras, cujo preço é de 1,20 euros só ida e 2,20 euros para ida e volta.
Em declarações à Lusa, Feliciano Júlio, da Associação da Ilha do Farol, um dos núcleos habitacionais das ilhas barreira da Ria Formosa com carreiras de barcos a partir de Olhão, considerou que a Docapesca não deveria ter autorizado a concessionária a fazer a cobrança sem ter consultado os representantes dos moradores.
“Nós nem sequer fomos consultados para tal facto”, afirmou o responsável, assegurando que os moradores ficaram “estupefactos” com a cobrança de três euros por carrinho de quatro rodas, que entrou em vigor em 26 de janeiro.
A cobrança foi proposta pela empresa concessionária num “pedido feito em 2025” e que “incluía os animais e todas as pessoas que utilizavam carros de quatro rodas”, mas a responsabilidade pela decisão final é da Docapesca, referiu.
“Acho que deveríamos ter também uma palavra a dizer. Mas quem tem esta receita e a quem interessa essa receita é a Docapesca, são eles que passam essa licença e dizem ‘você pode cobrar x, pode cobrar y’, mediante aquilo que o concessionário pediu”, argumentou.
Quanto aos animais, cujo transporte tem de ser feito em caixa própria, Feliciano Júlio lamentou que tenham de ser transportados numa área exterior da embarcação e “ir na rua a apanhar vento”, apelando para a adoção de medidas que permitam criar condições para, “nas alturas em que está mais vento e mau tempo, ficarem mais abrigados”.
A presidenta da Associação dos Moradores da Ilha da Culatra, Sílvia Padinha, disse à Lusa que não concorda com a decisão de cobrar pelos carrinhos de quatro rodas, mas reconheceu que os residentes da Culatra usam pouco esses equipamentos e recorrem mais a carrinhos de duas rodas, que “não têm qualquer aplicação de tarifa extra”.
“O que nós enquanto comunidade residente temos vindo a reivindicar já há algum tempo é um passe de residente com valores ajustados à nossa realidade, uma vez que neste momento não existe qualquer redução no preço do bilhete para residentes ou mesmo um passe, como existe nos transportes terrestres”, defendeu.
Trata-se de uma situação “injusta” para a Culatra, situada frente a Olhão, mas que pertence ao concelho de Faro, que tem a sua “especificidade” como comunidade piscatória e é afetada pelo “isolamento e a insularidade”, considerou Sílvia Padinha.
Francisco Guerreiro, gerente da Tavares & Guerreiro, empresa concessionária, rejeitou a ideia de haver qualquer limitação para os residentes, porque “não houve nenhuma proibição” e apenas se passou a cobrar por veículos com um volume que dificulta o transporte dos passageiros em segurança e com comodidade.
“A única coisa que estamos a cobrar são os carrinhos de quatro rodas”, afirmou, lembrando que os passageiros podem transportar, sem qualquer custo adicional, uma mala de viagem ou um carrinho de duas rodas, que são aqueles que a grande maioria das populações da Culatra, do Farol e da Armona utilizam no seu dia-a-dia.
“[Os de quatro rodas] Ocupam muito volume dentro do barco e os barcos são de passageiros, não são de carga”, justificou, argumentando que este problema é mais sentido no verão, com turistas que vão de férias para as ilhas e causa até “dificuldades às pessoas com carrinhos de bebés, que não podem passar”.
Francisco Guerreiro lembrou que a cobrança foi aprovada pela Docapesca e espera agora que a medida possa moderar a utilização destes veículos de transporte com quatro rodas durante o verão, quando as ilhas são procuradas por muitos turistas que recorrem a estes veículos.
“Vamos ver, ainda não sabemos qual vai ser o resultado. Mas no verão o barco ia cheio daqueles carrinhos, chegavam a meter crianças lá dentro e a ter sete ou oito” numa travessia, lembrou.
Lusa