O Algarve não é terreno para aventuras extremistas

15:15 - 24/02/2026 POLÍTICA
«Casa mal alicerçada não aguenta vendaval.» O Algarve merece alicerces sólidos, morais, institucionais e económicos.

A hora é de lucidez. E de coragem cívica.

Não se trata, sequer, de um debate ideológico superficial. Trata-se de carácter, de ética pública e de futuro regional.

O Algarve sempre foi terra de encontros. Entre o mar e a serra, entre o cristão, o mouro e o judeu, entre o pescador de Olhão e o agricultor de Alte, construiu-se uma identidade feita de hospitalidade, trabalho e honra. Como diz o povo, “terra que acolhe é terra que prospera”. É por isso que os factos recentemente noticiados sobre práticas internas do CHEGA e as suas estratégias de radicalização digital devem preocupar profundamente todos os algarvios de boa-fé.

Os relatos sobre recrutamento de jovens através de redes sociais, com linguagem simplificada, estética apelativa e mensagens polarizadoras, encontram eco na investigação publicada pelo Público em pré-publicação de Por Dentro do Chega, onde se descreve a forma sistemática como o partido se implantou entre adolescentes, explorando fragilidades educativas e promovendo discursos de desconfiança institucional. Mais grave ainda, o Observador noticiou acusações relativas a alegadas manipulações de eleições internas e pagamentos para angariação de votos ligados a meios neonazis. Mesmo que os factos estejam ainda sob escrutínio judicial, o simples contexto revela um padrão inquietante.

O Algarve, que sofreu na pele as crises económicas, a dependência excessiva do turismo sazonal e a desertificação do interior, não pode permitir que o seu nome seja associado a práticas que corroem a democracia por dentro.

Recrutamento sem escrúpulos e falhas de carácter.

Um partido é a soma moral dos seus militantes. Quando surgem denúncias de recrutamento indiscriminado, de aproximações a grupos extremistas ou de comportamentos eticamente duvidosos, não estamos perante “casos isolados”. Estamos perante uma cultura organizacional permissiva.

A Democracia Cristã ensina-nos que a política é uma forma exigente de caridade social. O Papa Francisco recorda que “a política é uma das formas mais preciosas da caridade, porque busca o bem comum”. Ora, onde há instrumentalização de jovens, onde há normalização do discurso de ódio ou banalização da violência simbólica, não há busca do bem comum — há exploração do ressentimento.

No Algarve, onde convivem comunidades portuguesas, brasileiras, ucranianas, britânicas e tantas outras, fomentar divisões identitárias é uma irresponsabilidade estratégica. O nosso tecido económico depende da confiança, da cooperação e da reputação internacional. A radicalização é veneno lento para uma região aberta ao mundo.

Manipulação interna e degradação democrática.

As acusações relativas a inscrições massivas para influenciar eleições internas, ainda que em averiguação, colocam uma questão maior - que cultura democrática interna sustenta o partido?

Um partido que não respeita os seus próprios processos internos dificilmente respeitará os equilíbrios institucionais quando tiver poder. A subsidiariedade, princípio central da Democracia Cristã, exige respeito pelas estruturas intermédias, transparência e responsabilidade. Não se compadece com “atalhos” organizativos.

O Algarve já sofreu demasiado com promessas fáceis. O populismo floresce onde há frustração — na habitação inacessível em Albufeira, nos salários baixos na restauração, na falta de médicos no barlavento. Mas indignação não é programa de governo.

A instrumentalização digital dos mais novos.

A investigação citada demonstra como o CHEGA domina códigos digitais de provocação, “viralização” e simplificação discursiva. Jovens expostos a mensagens repetidas, emocionalmente carregadas e pouco fundamentadas tornam-se presas fáceis de narrativas de confronto.

No Algarve, onde muitos jovens já enfrentam precariedade laboral e dificuldades de acesso à habitação, oferecer bodes expiatórios em vez de soluções estruturais é politicamente cómodo — mas moralmente errado.

A educação cívica, o pensamento crítico e a literacia mediática devem ser reforçadas nas nossas escolas. Não para impor ideologias, mas para formar cidadãos livres. Como advertia Adriano Moreira, “a democracia não é um estado adquirido; é um exercício permanente”.

O Algarve não precisa de gritos, precisa de soluções.

O Algarve enfrenta desafios reais: dependência do turismo de baixo valor acrescentado, escassez hídrica, envelhecimento populacional, pressão imobiliária estrangeira e desigualdades territoriais entre litoral e interior. Onde está a proposta estruturada do CHEGA para a diversificação económica? Para a gestão sustentável da água? Para a fixação de jovens qualificados?

O ruído substituiu o programa.

A Democracia Cristã oferece um caminho alternativo: economia social de mercado, incentivo às pequenas e médias empresas regionais, valorização da agricultura sustentável, apoio às IPSS e reforço das redes de solidariedade. O desenvolvimento regional não se constrói com slogans, mas com cooperação entre autarquias, empresas e sociedade civil.

Um apelo aos algarvios

• Aos Baby Boomers, que viveram a transição democrática: não deixem que a memória do 25 de Abril seja relativizada por discursos de ressentimento.

• À Geração X, que construiu o Algarve turístico moderno: defendam a reputação internacional que tanto custou a erguer.

• Aos Millennials, sufocados por rendas altas e contratos precários: exijam reformas sérias, não atalhos populistas.

• À Geração Z, nativa digital: desconfiem de quem transforma política em espetáculo.

O Algarve sempre repudiou práticas imorais e abusivas. A nossa tradição cristã, feita de procissões, romarias e solidariedade comunitária, ensina que a dignidade da pessoa humana é inegociável.

 

Não se trata de demonizar eleitores. Trata-se de discernir projetos. A Democracia Cristã, historicamente representada pelo CDS-PP, tem provas dadas de responsabilidade governativa, defesa da economia produtiva e compromisso ético. Precisamos de militantes e dirigentes cuja vida pública seja coerente com os valores que proclamam.

Como dizia um velho provérbio algarvio: “Casa mal alicerçada não aguenta vendaval.” O Algarve merece alicerces sólidos, morais, institucionais e económicos.

Cabe aos algarvios escolher entre o ruído e a responsabilidade, entre o espetáculo e o serviço, entre o ressentimento e o bem comum.

A hora é de lucidez. E de coragem cívica.

 

Alexandre Guedes Silva

Comissão Política Distrital do CDS-PP