GORAN BREGOVIC, SEAN KUTI, SÉRGIO GODINHO E MUITO MAIS NO 22º FESTIVAL MED

08:59 - 27/02/2026 LOULÉ
Vai ser a edição mais internacional de sempre, com 30 países representados

Já são conhecidos os primeiros artistas que integram o alinhamento musical da edição de 2026 do Festival MED, a decorrer na Zona Histórica de Loulé, entre os dias 25 e 28 de junho. Goran Bregovic (Bósnia e Herzegovina), Sean Kuti & The Egypt 80 (Nigéria/França), Salif Keita (Mali), Tiken Jah Fakoli (Ilha da Reunião) e o português Sérgio Godinho fazem parte de um conjunto de 15 nomes anunciados esta quinta-feira, durante a apresentação do evento, que decorreu non stand do Município de Loulé, na BTL - Better Tourism Lisbon Travel Market.

O contingente internacional de artistas é extenso e recupera o foco na música de várias latitudes e diferentes universos. Esta será mesmo a edição mais internacional de sempre, com 30 países representados, como realçou o diretor e programador do MED, Paulo Silva.

Além dos nomes já referidos, também marcam presença artistas como Los Van Van (Cuba), Calle Mambo (Chile), Arooj Aftab (Paquistão), Natacha Atlas (Egito/Bélgica), Bohemian Betyars (Hungria) e Tangomotan (França).

No enquadramento da proximidade musical e da lusofonia, o festival confirma Bonga (Angola), Lura (Cabo Verde), Expresso Transatlântico (Portugal), - três regressos muito aguardados ao MED -, e Fidju Kitxora (Portugal/Cabo Verde). A edição do presente ano tem ainda a honra de receber, pela primeira vez, Sérgio Godinho.

 

Novidades a caminho!

 

2026 traz muitas novidades ao Festival MED, com o objetivo de criar novas e melhores experiências ao público: a ampliação do recinto, um novo espaço (MED Lounge), a integração plena do Mercado Municipal de Loulé como parte do festival e com uma programação continuada no espaço, um novo sistema de bilhética, o aumento da área de gastronomia/streetfood e diversidade de propostas, a criação de novos espaços de atuação de artistas de rua.

Serão também implementados novos horários do festival e criada uma nova entrada no recinto, junto ao Largo de S. Francisco, para além das duas existentes (entre o Mercado Municipal e a Câmara Municipal / na rua de acesso ao Castelo de Loulé, junto ao Café Calcinha), garantindo maior comodidade para o visitante.

A organização vai ainda introduzir o conceito CIDADE MED, com decoração pela cidade e várias iniciativas a acontecer até ao festival, o que ajudará a promover o evento e a dinamizar a economia local.

Ao nível de conteúdos, será criado um novo Ciclo de Conferências MED, que convida personalidades ligadas ao mundo artístico e não só.

O presidente da Câmara Municipal de Loulé, Telmo Pinto, destaca as novidades desta edição: “O MED é certamente uma das maiores referências culturais em Portugal, em especial da região do Algarve. O Município de Loulé orgulha-se de acolher um evento tão rico e compromete-se com o crescimento qualitativo do festival. Nesse sentido, iremos introduzir algumas novidades que visam precisamente melhorar a oferta cultural e consolidar o crescimento do evento”.

Já o diretor e programador do MED, Paulo Silva, releva o regresso do festival ao seu ADN: “Em 2026, o foco centra-se na música e este será um ano em que iremos reposicionar o MED como um festival de World Music. O convite aos artistas foi feito com o intuito de termos um cartaz que cumpra na íntegra o seu ecletismo e heterogeneidade”.

 

O Festival MED convida o público a viajar pelo mundo através de uma programação diversificada, destacando a pluralidade de géneros musicais, mensagens e atuações ao vivo. Com mais de 50 concertos, centenas de artistas em representação de 30 países, 5 palcos principais (Matriz, Cerca, Chafariz, Castelo e Hammam), o MED decorre de 25 a 27 de junho, garantindo ainda um dia de acesso gratuito (28 junho).

Em breve todas as informações estarão disponíveis em https://festivalmed.cm-loule.pt/

Bilhetes à venda a partir de 2 de março (a partir das 18h00), em BOL.pt ou no site festival.

 

 

Goran Bregović

Nascido em 1950 em Sarajevo, no coração dos Balcãs, Goran Bregović cresceu entre o caos da ex-Jugoslávia e o fervor das suas ruas multiculturais. Filho de um croata católico e de uma sérvia ortodoxa, aprendeu guitarra com o avô cigano.  Desenvolveu a sua dieta musical entre as chamas de casamentos e cafés onde se misturavam sérvios, croatas, judeus sefarditas e ciganos. Afinal, como refere Bregović, “a música é a única pátria que nunca se desintegrou.”

Começou pelo rock. Nos anos 70, foi o rosto dos Bijelo Dugme, a banda mais popular da Jugoslávia que enchia estádios. Mas Bregović ouvia outra coisa por baixo do amplificador: os metais das festas de casamentos nos bairros de Sarajevo, os coros femininos que chegavam de aldeias búlgaras como se viessem de outro século, o violino cigano que não pede autorização para entrar em nenhuma sala. Quando o realizador Emir Kusturica o convidou para compor a banda sonora de O Tempo dos Ciganos, em 1988, Bregović não hesitou — e ao fazê-lo encontrou a linguagem que procurava sem o saber. Arizona Dream, Underground, A Rainha Margot: o cinema tornou-se o laboratório onde percebeu que a sua música precisava de espaço épico, de cerimónia, de canções para casamentos e funerais porque é aí que a vida acontece.

Com o eclodir da guerra dos Balcãs, Goran Bregović forma em 1991 a Wedding and Funeral Band (Orquestra para Casamentos e Funerais). O nome reflete a essência balcânica: a mesma música serve tanto para celebrar a vida como para chorar os mortos. Durante o cerco de Sarajevo (1992-95), tocou em casamentos e funerais reais, salvando músicos ciganos bósnios da morte.

O som de Bregović é, pois, um banquete de núpcias no fim do mundo. Há metais balcânicos que empurram o sangue para cima, vozes femininas búlgaras que parecem vir de outro século, percussão que não deixa escolha, harmonias que são simultaneamente sagradas e pagãs. Tradições ortodoxas, klezmer, sevdah bósnio e punk global.

Ele próprio gosta de dizer que compõe música para funerais e casamentos — ou seja, para os momentos em que a vida exige mais do que palavras. A sua Wedding and Funeral Band não é um ensemble, “é uma pequena Jugoslávia em palco”.

 

 

Lura

24 de outuro de 2024. Angélique Kidjo, diva maior da música africana, celebra 40 anos de carreira no Auditório da Gulbenkian. Lura é a convidada especial deste espetáculo onde impõe a sua carismática presença em “Carnaval de São Vicente”. Num final incendiário, a cantar a duas vozes o inevitável “Pata Pata” de Miriam Makeba, entre a audiência, encontra Anabela na plateia e leva-a para cima palco para terminar esta celebração da música africana em apoteose.

Lura é fogo. É sangue vulcânico. Uma presença magnética em palco. Dança com fúria alegre, confidencia histórias de bairro, puxa o público para a roda crioula. É Lisboa, Paris e São Vicente. É morna, fado, coladeira, funaná, batuque rebelde da diáspora, afropop, bossa nova, identidade plural tão bem espelhada no álbum Multicolor (2023). Disco que inclui um dueto com Kidjo (Cetam), onde as tradições cabo-verdianas surgem com novas texturas, pintadas com novas tonalidades, como se cada faixa fosse uma ilha diferente do mesmo arquipélago emocional. Entre mensagens de autoestima como Preta (eco de Black Lives Matter).

Adolescente corista nos anos 90, Lura saltou para o estrelato com In Love (2002) e explodiu com Di Korpu Ku Alma (2005), onde Na Ri Na se tornou hino global de alegria crioula. Sete álbuns depois, Lura representa, uma das formas mais luminosas de cantar a diáspora cabo-verdiana com respeito pela raiz e coragem de a reinventar. Num tempo em que as identidades se cruzam e se questionam, a sua música mostra que se pode ser de muitos lugares sem perder o centro.

Quando venera Cesária, a “sodade” é real, tem peso, tem textura, tem o cheiro específico de uma ausência que não se resolve.

No Festival MED assinala uma carreira com 30 anos de atividade que deu várias voltas ao mundo com uma bagagem densa.

 

 

Tangomotán

Desde o início que o MED foi um festival que sempre acolheu outras músicas para além das provenientes da extensa bacia do Mediterrâneo. A quarta edição de 2007 encerrou com a formação argentina Bajofondo Tango Club do mestre Gustavo Santaolalla.

19 anos depois, o MED recebe um novo coletivo de eletrotango que evoca estas e outras boas memórias como as de Gotan Project.

Tangomotán é um quarteto parisiense, formado em 2016, que reinventa o tango como música de hoje: fusão visceral de tradição argentina, formação clássica europeia e impulsos electrónicos dançantes. É o tango aumentado (e não eletrotango) como eles bem gostam de referir. 

Constituído por músicos exímios de formação clássica nos conservatórios de Paris (CRR, CNSM) e Gennevilliers, como Blanche Stromboni (contrabaixo), Marion Chiron (bandoneon), Robin Apparailly (violino) e Leandro Lacapère (piano), este ensemble transforma o palco num laboratório de tango vivo, acessível e electrizante.

A sonoridade dos Tangomotán funde o tango raiz com bandoneon, violino, piano e contrabaixo a elementos eletrónicos (como loops e distorções). Partindo de melodias tradicionais, amplificam ritmos e improvisações, ecoando os pioneiros do tango eletrónico, mas com um toque operário e humanista, sempre centrado na dança e na energia viva do género. O álbum Motán (2024) e o mais recente L'Étreinte (2026) são a demonstração mais cabal desta alquimia: música que sabe de onde vem e não tem medo de não saber para onde vai.

Ao vivo, vestem o bleu de travail para um visual cru e autêntico, entregando-se a performances viscerais de improvisação e fusão acústico-eletrónica. Dos palcos intimistas aos grandes festivais, hipnotizam com energia contagiante, transformando cada concerto numa milonga moderna e universal.

Para os Tangomotán, o tango não é um género do passado encerrado em si mesmo, é uma linguagem viva, capaz de absorver o presente sem perder o carácter.

 

 

Arooj Aftab

Há vozes que chegam de um lugar difícil de situar no mapa. A de Arooj Aftab é uma delas. Nascida em Lahore, no Paquistão, criada entre a Arábia Saudita e os Estados Unidos, ela é filha de uma geografia interior tão vasta quanto contraditória. É precisamente dessa tensão que nasce a sua música.

Cresceu rodeada pelo canto devocional islâmico, pela poesia clássica urdu que os avós recitavam como quem reza, e pela música pop que chegava por canais menos esperados. Nada disso se perdeu. Tudo ficou, a sedimentar, à espera de forma. Em criança, foi uma autodidata curiosa, fascinada pelas gravações de Nusrat Fateh Ali Khan, Abida Parveen e Mehdi Hassan. Na adolescência, começou a reinterpretar clássicos do ghazal e do qawwali com uma subtileza que rompia convenções.

Mais tarde, quando chegou ao Berklee College of Music, em Boston, encontrou a linguagem técnica para o que já trazia dentro. Encontrou também o jazz modal, a música minimalista, a eletrónica ambiental e a composição moderna.

O que emergiu desse percurso é uma obra que desafia qualquer prateleira. Os seus álbuns, em particular Vulture Prince, lançado em 2021 e dedicado ao irmão que perdeu demasiado cedo, são objetos de rara densidade emocional. Neles, o ghazal e o sufi qawwali encontram arranjos de cordas que parecem respirar, camadas electrónicas que funcionam como névoa, e uma voz que não força nunca, que não se compete com nada, mas que ocupa tudo.

Em 2022, o Grammy de Melhor Performance Global, a curiosidade de Barack Obama incluir a canção Mohabbat na sua playlist de verão, veio confirmar o que os ouvintes mais atentos já sabiam: Arooj Aftab não é uma promessa. É uma presença.

Desde então, Aftab tem colaborado com figuras como Vijay Iyer, Shahzad Ismaily ou Meshell Ndegeocello, construindo pontes entre o jazz espiritual, o neoclássico e as raízes sufi. O trio Love in Exile (2023) consolidou essa estética de improvisação contemplativa. Música como respiração partilhada.

Night Reign (2024) confirmou que o prémio não tinha sido um acidente. Era apenas o mundo a pôr-se a par do que ela já fazia.

A sua identidade sonora é feita de paradoxos produtivos: é antiga e contemporânea, é íntima e cósmica, é contida e absolutamente devastadora. Ouvir Arooj é aceitar ser conduzido a um tempo que não é bem o nosso. Um tempo suspenso, onde a dor e a beleza coexistem sem se anularem.

No MED apresentará um espetáculo que é ao mesmo tempo ritual e confidência.

 

 

Natacha Atlas

Nos anos 90, quando o panorama musical global começava a abrir-se às fusões e às identidades híbridas, surge uma voz que desafia fronteiras: Natacha Atlas. Símbolo maior de uma geração que procurou unir o Oriente e o Ocidente. Da eletrónica urbana de Londres aos ecos melismáticos do Cairo antigo, a sua música foi e continua a ser um território onde culturas se tocam, dialogam e se reinventam.

Filha de pai de origem árabe (com raízes egípcias, marroquinas e palestinianas, e alguma ascendência sefardita) e mãe inglesa, Natacha cresceu entre Bruxelas e o Reino Unido, movendo-se entre mundos com naturalidade. A descoberta artística dá-se em plena década de 1990, no epicentro multicultural de Londres, através da editora Nation Records, bastião das fusões ousadas entre eletrónica, dub e música árabe. Foi também aí que se cruzou com os Transglobal Underground, coletivo que lhe abriu as portas (e com quem continua a atuar) de uma imaginação sonora sem limites. Essa colaboração inaugurou a sua assinatura: uma alquimia de máquinas e maqams, sintetizadores e derbakes, beats e baladi.

Da estreia a solo com Diaspora (1995) a discos como Gedida (1999) ou Ayeshteni (2001), Atlas construiu um percurso coerente e aventureiro. A sua voz transita livremente entre dialetos árabes, inglês e francês; funde a tradição vocal egípcia de Umm Kulthum com o impulso cosmopolita do trip-hop e da música eletrónica. Colaborou com mestres como Nitin Sawhney, Jean-Michel Jarre, ou Ibrahim Maalouf, e soube reinventar-se em direção a uma sonoridade mais acústica, de câmara, onde o alaúde e o violino árabe convivem com o contrabaixo e o piano.

A música de Natacha Atlas é, acima de tudo, um lugar de pertença plural. A sua voz, quente e translúcida, atua como ponte entre continentes e tempos históricos. Cada canção é uma travessia: do Magrebe ao Levante, da melancolia andaluza à vibração eletrónica, da espiritualidade sufi ao desejo pop.

Nove anos depois de ter atuado no Ciclo Mundos do Teatro da Trindade, Natacha Atlas regressa a Portugal com uma maturidade luminosa. A sua voz continua a exalar o mesmo poder hipnótico, agora mais depurado, mais sábio. Acompanhada por músicos que se movimentam entre a improvisação jazzística e o fraseado árabe clássico, a artista transforma o concerto num ritual sensorial: ancestral e futurista, íntimo e universal.

 

 

Bohemian Betyars

Há bandas que transformam o caos em celebração e os Bohemian Betyars são a prova viva disso. Nascidos em 2009, em Miskolc, no nordeste húngaro, este sexteto tornou-se sinónimo de energia contagiante, humor irreverente e uma sonoridade que atravessa fronteiras.

O seu nome, que junta o espírito livre “boémio” ao termo húngaro betyár (fora da lei, o vagabundo nobre que recusa a ordem estabelecida), imprime-lhes um manifesto: viver e tocar sem amarras, num eterno convite à dança e à resistência alegre, recuperando a festa dos Balcãs e das aldeias ciganas, com atrevimento punk.

Desde cedo, cruzaram caminhos com o ska dos anos noventa, o punk rock centro-europeu e a vertigem balcânica popularizada por nomes como Goran Bregović, Emir Kusturica, Fanfare Ciocărlia, Gogol Bordello ou Dubioza Kolektiv. Mas os Betyars têm algo de único: uma relação espontânea entre o caos e a precisão musical. As suas canções transitam entre a euforia das fanfarras, o balanço cigano, o deboche da festa ska e o lirismo melancólico dos violinos da planície austro-húngara. Descrita muitas vezes como speed-folk freak-punk, a música dos Bohemian Betyars reconcilia tradição e modernidade num abraço turbulento. É música de viagem e de desenraizamento, memória e futuro ao mesmo tempo.

Os temas, muitas vezes cantados em húngaro, evocam bailes rurais, amores desavergonhados e um certo espírito libertário que sempre acompanhou as margens da cultura centro-europeia.

Num espetáculo que é tão intenso quanto teatral, figurinos coloridos, coreografias improvisadas e uma energia que parece alimentar-se diretamente da multidão, o público não assiste, participa. E quando os sopros começam a galgar o compasso, o concerto transforma-se num ritual coletivo de alegria anárquica.

No MED, os Betyars mostram que continuar a dançar é uma forma de resistência e que a festa pode ser, também, uma arma política.

 

 

Salif Keita

Na constelação da música africana contemporânea, poucos nomes brilham com a intensidade de Salif Keita. Chamado tantas vezes de a voz de ouro de África, o cantor maliano transcendeu fronteiras culturais e linguísticas, levando o som quente e espiritual do Mali a palcos de todos os continentes. Entre o griot e o trovador moderno, Keita construiu uma ponte entre a tradição mandinga e o mundo global, desafiando limites e preconceitos através da arte.

Nascido em 1949 na aldeia de Djoliba, Salif Keita carrega nas veias o sangue real do Império do Mali, descendente direto de Sundiata Keita, o lendário fundador da nação. Mas o seu nascimento foi marcado por um estigma: o albinismo, que na cultura tradicional mandinga era visto como sinal de infortúnio. Rejeitado pela sua própria comunidade, o jovem Salif encontrou na música, ironicamente, uma vocação tabu para alguém de origem nobre: o caminho da redenção. Essa contradição entre exclusão e herança tornou-se o motor poético e espiritual da sua vida.

A sua jornada artística começa nos anos 1970 com Les Ambassadeurs Internationaux, o mítico grupo de Bamaco que marcou uma geração e projetou o Mali moderno. Em 1984, partiu para Paris, onde o mundo o esperava. Três anos depois, com o álbum Soro, Keita afirma-se como voz maior do continente, cruzando raízes africanas com jazz, funk e pop eletrónica. Desde então, o seu percurso é um verdadeiro mapa de encontros: Cesária Évora, Carlos Santana, Wayne Shorter, Joe Zawinul, Angélique Kidjo, Youssou N'Dour.  Colaborou com todos, sempre em nome de uma mestiçagem sonora generosa e sem fronteiras.

Em 2025, Salif Keita surpreendeu o mundo com So Kono (“no quarto” em língua mandinga), um disco gravado num quarto de hotel em Quioto, de regresso às origens e, ao mesmo tempo, de reinvenção. O álbum abraça uma estética acústica mais orgânica e espiritual. Se antes a sua música era feita de travessias elétricas, agora ecoa como um ritual íntimo, uma celebração da fragilidade humana e da sabedoria conquistada em mais de cinco décadas de palco. So Kono é, de certo modo, o testamento sonoro de um mestre que aprendeu a transformar a dor em luz.

Ao MED, Salif Keita traz consigo não apenas as canções do seu último trabalho, mas toda uma história de resiliência, beleza e pertença. A sua voz continua a soar com uma pureza hipnótica, feita de areia e ouro. Ao vivo, Keita não canta apenas, ele convoca espíritos, memórias e esperanças, guiando o público por territórios invisíveis onde a diferença é cantada como bênção.

 

 

Seun Kuti & Egypt 80

Há quem confunda os termos afrobeat e afrobeats e o esclarecimento é importante, sobretudo quando falamos de Seun Kuti. O afrobeat, criado por Fela Kuti na Lagos dos anos 70, é um género potente e expansivo: mistura de ritmos iorubás, jazz, funk, soul e uma coragem política sem receio. Cada tema era manifesto, cada sopro, uma faísca de revolta. Já o afrobeats (no plural), que domina hoje as pistas urbanas de Lagos a Londres, é um movimento mais pop e eletrónico, nascido de uma descendência estética, mas com menos carga militante. Seun Kuti permanece fiel ao primeiro. O afrobeat original, o corpo e o nervo de uma África que pensa, dança e resiste.

Seun Anikulapo Kuti nasceu em 1983, em Lagos. Filho mais novo do lendário Fela Kuti e da militante e performer Fehintola Anikulapo Kuti. Cresceu literalmente dentro do palco e dos ensaios do Shrine, o lendário quartel-general da orquestra Egypt 80, onde aprendeu cedo que música e política podiam falar a mesma língua. Aos nove anos já acompanhava o pai em digressões; aos catorze, depois da morte de Fela, assumiu a liderança da banda. Um gesto quase mítico de continuidade.

Desde então, Seun Kuti tem percorrido o mundo com uma energia visceral. Dos primeiros álbuns Many Things (2008) e From Africa with Fury: Rise (2011, produzido por Brian Eno) até a Black Times (2018), ergue uma ponte entre a Nigéria contemporânea e o legado do pai, acrescentando-lhe urgência e fogo próprios. Influenciado pelo jazz insurgente de Coltrane, pelo groove político de James Brown e pela poesia de resistência de artistas africanos modernos, Seun cultiva um som que não se limita à homenagem. É reinvenção viva.

No comando da Egypt 80, a banda de metais implacáveis e percussões que nunca adormece, Seun Kuti mantém o ADN do afrobeat: a extensa construção rítmica, a hipnose repetitiva, o discurso social no centro da dança. Mas há também espaço para reaggae, spoken word e improvisação jazzística. Cada concerto é um rito de libertação. O legado de Fela percorre o palco, mas Seun habita-o como um líder novo: feroz, eletrizante, profundamente contemporâneo.

15 anos depois, o MED revê um furacão de energia que arrasta a orquestra e o público para uma celebração de liberdade africana e universal.

 

 

Tiken Jah Fakoli

Há quem cante para entreter, e há quem cante para despertar. Tiken Jah Fakoli é de uma linhagem antiga, a dos griots, os guardiões da memória africana. Como eles, não se limita a contar histórias: transmite saber, esperança e resistência. A sua música é crónica e manifesto, descrevendo a vida quotidiana e denunciando as injustiças que persistem entre os povos. Num continente onde a palavra sempre foi poder, Tiken ergue-se como um arauto de consciência política e social, herdeiro de uma tradição oral que, através do reggae, encontra nova força e alcance global.

Nascido Doumbia Moussa Fakoly, em 1968, na pequena cidade de Odienné, noroeste da Costa do Marfim, cresceu a ouvir a cadência dos tambores e as histórias dos anciãos. Esses ritmos e narrativas formaram-lhe o espírito crítico e o sentido de pertença. Jovem ainda, foi testemunha de tensões étnicas e desigualdades gritantes, e percebeu cedo que a música podia ser uma ferramenta de união e denúncia.

O percurso musical de Tiken Jah Fakoli é um mapa da África moderna: das ruas de Abidjan à diáspora em Bamaco, Paris ou Montréal, cada etapa reflete encontros e transformações. Inspirado por ícones jamaicanos como Peter Tosh e Burning Spear, mas enraizado em tradições mandingas, criou um reggae de identidade africana, impregnado de corás, ngonis e percussões tribais. A partir do álbum Mangercratie (1996), a sua voz tornou-se referência continental. Seguiram-se trabalhos como Françafrique (2002) e African Revolution (2010), onde conjuga crítica política e espiritualidade, sempre com swing irresistível e letras que ressoam como sermões laicos.

A identidade sonora de Tiken Jah Fakoli é uma ponte entre mundos: o reggae raiz jamaicano e o pulso ancestral da África Ocidental. Nele encontramos o legado espiritual de Bob Marley, mas reinterpretado segundo a geografia e a luta africanas. Se Marley proclamava “One Love” como um apelo universal, Tiken acrescenta-lhe um contexto e uma urgência: “Um amor, sim, mas também justiça e verdade.” Na sua música, o baixo grave é bússola, a voz é chama, e as palavras são armas pacíficas. Como Marley, acredita no poder transformador da canção e na responsabilidade do artista para com o seu povo.

Num tempo em que o ruído frequentemente abafa a verdade, ver Tiken Jah Fakoli em palco é um gesto de lucidez. Porque ele lembra-nos que dançar pode ser também um ato político, e que a alegria não é fuga. É resistência. O seu reggae não anestesia, desperta.

 

 

Calle Mambo

Calle Mambo surgiram em 2013 nas ruas geladas de Munique, quando músicos chilenos, como o cantor Jhon Valle, o guitarrista Erkki Nylund, Guillaume Laumière no charango e Jankely Felix na percussão, se reuniram para tocar na rua. Músicos migrantes que buscam sustento e pertença ao mesmo tempo. O nome surgiu como uma piada: "mambo na calle", capturando o espírito espontâneo e de rua que os define desde o início.

O ponto de partida, é a riqueza descomunal das músicas populares latino-americanas. Não apenas as mais conhecidas internacionalmente, mas as que a globalização foi empurrando para as margens: o huayno dos Andes peruanos, o caporal boliviano, a timba cubana, a cumbia colombiana e chilena nos seus muitos dialetos. É sobre estas raízes que Calle Mambo funde a eletrónica, o rap, os beats contemporâneos, e o resultado é o que a banda batizou de folklor electro-urbano: uma linguagem que faz a ponte entre gerações sem trair nenhuma delas.

Inspirados em pioneiros como Celso Piña, que revolucionou a cumbia com hip-hop e energia roqueira, gravaram álbuns como o homónimo de 2015, Electro Pachamámico (2020) e o recente Retumba la Tierra (2025).

O arsenal instrumental é, por si só, uma declaração de intenções. Em palco, Calle Mambo interpreta mais de dez instrumentos, como quena, quenacho, charango, ronroco, zampoña, gaita colombiana, cuatro venezuelano, tiple, timbales, sintetizadores e percussão eletrónica. Cada peça é uma viagem que parte dos Andes e chega à pista de dança. As letras não ficam aquém do som. Falam de migração forçada, de destruição de ecossistemas, de opressão e de resiliência.

Os Calle Mambo chegam ao MED com o fôlego de uma banda em contínua digressão e com o repertório mais maduro da sua trajetória, com a energia de quem tem urgência em comunicar, não apenas ritmos, mas memórias, territórios e identidades que resistem ao esquecimento.

 

 

Los Van Van

Em 1969, o som das ruas de Havana pulsava entre a tradição e a esperança. Juan Formell, que passara pela Orquesta Revé, ambiciona criar uma orquestra que traduza a vida quotidiana cubana em música. Inspirou-se na charanga clássica formada por flauta, violinos e uma secção rítmica leve, mas adicionou também baixo elétrico, bateria e teclados. O resultado? Um híbrido irresistível: a charanga moderna, que transformou o panorama musical da ilha. O próprio nome “Van Van” ecoava o lema popular da época “¡Vamos a andar!”. Símbolo de movimento, progresso e vitalidade inspirado nas iconográficas camionetas soviéticas “van” dessa época.

Desde os anos 70, Los Van Van tornaram-se muito mais do que uma banda: passaram a ser uma instituição nacional e um fenómeno transcontinental. Foram pioneiros do songo, género que misturou o sabor tradicional com o pulso elétrico doa pop, do funk e do jazz.

Os arranjos de Juan Formell e do seu carismático trombonista Pupy Pedroso, aliados às vozes ásperas e cheias de “calle” de Pedro Calvo, Mayito Rivera e tantos outros, definiram uma identidade sonora que influenciou orquestras e salseros de todo o mundo. Dos NG La Banda aos Irakere. Em Nova Iorque e em Cali, músicos de salsa admitem que Los Van Van mudaram a gramática da música dançável latino-americana.

Em 2014, após o falecimento de Juan Formell, o filho Juan que já era diretor musical de Los Van Van há uma década, pega na batuta da orquestra e moderniza-a sem perder o balanço genuíno, incorporando samplers discretos, harmonias mais pop, e uma energia que transforma o palco em pista de baile universal. 

Los Van Van são uma orquestra que não repousa sobre o passado. Têm o dom raro de soar a clássico e a futuro ao mesmo tempo. Vê-los no MED é assistir à memória viva de Cuba com corpo inteiro. É sentir o pulsar de Havana, o rumor do Caribe e o ADN do groove latino passado de pai para filho.

 

 

Bonga

Quando Bonga se fez ouvir, Angola era ainda uma nação a lutar por se reconhecer livre. As suas canções ecoavam no coração de quem sonhava o fim da colonização e o nascimento de uma identidade própria. Cantava o semba quando este já era uma forma de resistência: ritmo mestiço, raiz afro-lusófona, corpo e palavra em movimento. Num tempo em que a música era também arma e refúgio, Bonga ergueu a voz como símbolo de unidade e libertação. Foi perseguido, exilado, mas nunca silenciado. O seu canto correu de Luanda a Lisboa e daí ao mundo, levando a memória de um povo.

Nascido José Adelino Barceló de Carvalho, em Kipiri, nos arredores de Catumbela, em 1942, Bonga cresceu entre os batuques de Angola e os discos que chegavam do outro lado do Atlântico. Antes de ser músico, foi atleta de alta competição e chegou a representar Portugal nos 400 metros. Mas quando o vento da mudança começou a soprar em África, trocou o nome de corredor pelo nome de mensageiro: Bonga Kuenda. Ou seja, “aquele que atravessa fronteiras a correr”. A partir daí, correu, sim, mas atrás da liberdade. Bonga partiu para Holanda, para França, para o exílio que tantos conheceram e poucos souberam transformar em obra.

Instalado na Europa nos anos 70, Bonga tornou-se voz-chave da diáspora angolana. O seu álbum de estreia, Angola 72, fundiu guitarras acústicas e reco-recos, saxofone e melancolia, e deu ao semba um novo horizonte: urbano, poético, universal. Influenciado por Liceu Vieira Dias, Rui Mingas, pela morna e pelo fado, reinventou o semba como linguagem híbrida, entre o lamento e o convite à dança.

Ao longo de mais de cinco décadas, construiu uma obra que é também um arquivo: das influências do batuque e da rebita ao diálogo com o jazz e com a música cabo-verdiana, da língua kimbundu, que insiste em cantar. Nas suas canções moram histórias de pescadores, de mulheres que esperam, de crianças que crescem depressa demais, de um continente que o Ocidente teima em não ouvir com a devida atenção. A voz de Bonga é inconfundível: rouca, terrosa, quase ancestral. Transporta o sal das estradas de terra e a doçura dos quintais de Luanda.

Aos 84 anos, com mais de meio século de canções e resistências, Bonga regressa ao MED, 8 anos depois, com a mesma força de outrora.

 

 

Expresso Transatlântico

Há uma Lisboa que não cabe num postal. Que não se explica em verso de saudade nem em cartão turístico. É mestiça, em contante movimento, aberta ao Mediterrâneo, ao Atlântico e ao resto do mundo. A partir desta Lisboa, os Expresso Transatlântico transformam a guitarra portuguesa em personagem principal de um filme sonoro que tanto cabe num clube intimista, como num grande festival de rock ou de músicas do mundo.

No centro do trio está Gaspar Varela, guitarrista português de exceção e bisneto da histórica fadista Celeste Rodrigues, herança que garante uma linha direta à casa de fado e ao património de Amália. Ao lado, o irmão Sebastião Varela assume a guitarra elétrica e Rafael Matos a bateria, deslocando o fado para um território onde a tradição dialoga, sem reverência cega, com a cidade de hoje. Não vêm “evangelizar” o fado, como gostam de sublinhar; vêm antes provar que o ADN fadista pode sobreviver e florescer fora das fronteiras do género.

Depois de um EP de estreia apresentado na WOMEX de 2022 (a maior feira de músicas do mundo), lançam em 2023 o álbum Ressaca Bailada. Obra descrita pela crítica como um “baile de beleza e fúria com saudades do futuro”, onde o fado se cruza com rock, blues, funaná, samba e ecos do cinema de western à portuguesa, entre referências que vão de Dead Combo a Zeca Afonso.

Em palco, o Expresso Transatlântico é uma outra coisa. A música ganha corpo, urgência, uma fisicalidade que os registos gravados apenas anunciam.

Ao MED trazem o segundo e novo álbum que saiu em janeiro deste ano. Trópico Paranóia, produzido por Paulo Furtado (The Legendary Tigerman), assume mais risco e tensão, olhando de frente para um mundo em decadência, sem perder a pulsação festiva que a define.

Num tempo em que se levantam muros e se desconfia da mistura, os Expresso Transatlântico respondem com um baile humanista. A sua diversidade é riqueza, não ameaça.

 

 

Fidju Kitxora

Fidju Kitxora é um corpo em movimento entre Lisboa e Cabo Verde: um coletivo enigmático que transforma a pista de dança em laboratório de memória e futuro. Da rave de funaná às batidas afrohouse, passando por semba e kuduro.

“Fidju Kitxora” significa “filho que chora” em crioulo, imagem perfeita para um projeto nascido do luto e da saudade de uma terra que, durante anos, só existiu na imaginação. Depois da morte da avó, André “Xina” Coelho (filho de pai português e mãe cabo‑verdiana) parte para Cabo Verde, caminha centenas de quilómetros a pé entre ilhas e famílias, grava vozes, ruídos, celebrações e silêncios, e percebe que quer devolver em música o amor recebido. 

Sobre essa matéria-prima, constrói uma arquitetura sonora que não pede licença a nenhum género: o funaná torrencial e indomável de Cabo Verde, com o seu ferrinho e acordeão (como em Lobu na Sukuru, com a participação de Scúru Fitchadú), enreda-se com o semba angolano, o kuduro, a afrohouse, a ecos de techno e (outras) experimentações eletrónicas, sempre atravessados por gravações de campo. Dessa alquimia, nasceu Racodja, álbum de estreia lançado em 2024.  

Em palco, o anonimato parcial (rosto oculto, foco na performance de corpo inteiro), transforma o concerto numa espécie de arquivo vivo: luz, dança e som conspiram para que o público se perca na multidão ao mesmo tempo que reencontra perguntas antigas sobre pertença e identidade.

Com o álbum de estreia Racodja a abrir portas e o novo single Simbron a anunciar um segundo álbum previsto para 2026, o Fidju Kitxora está num momento de viragem. O MED recebe um organismo vivo em mutação contínua, a prometer que a próxima paragem será ainda mais profunda nessa viagem pela pós‑diáspora.

 

 

Sérgio Godinho

Sérgio Godinho não tem género. Tem universo. As suas canções têm imensas vidas. Imensos arranjos. Habitam ao mesmo tempo o bar e a biblioteca, a estrada e a praça pública. São letras que se lembram, melodias que insistem. E ao vivo, tudo isso ganha uma dimensão diferente: ele é um dos raros artistas capazes de fazer uma sala grande sentir-se íntima. Godinho é, pois, um cartógrafo de geografias afetivas, onde cada tema é um porto de escala diferente, mas a língua portuguesa é sempre o cais de partida.

Nos últimos anos, Sérgio Godinho, com a excelsa formação os Assessores e com outros cúmplices, tem revisitado o seu reportório ao vivo, que desconstroem e reimaginam clássicos como “Liberdade”, “Os Conquistadores” ou “Homem dos Sete Instrumentos”, como se cada concerto fosse um laboratório de arranjos e humores.

Ao longo do tempo, foi incorporando jazz, ritmos urbanos, texturas eletrónicas, ecos de música brasileira e atlântica, mantendo sempre a palavra no centro: histórias em formato de canção, com personagens, ângulos inesperados e uma ironia que nunca se divorcia da ternura.

Registos recentes, como o projeto ao vivo Sérgio vezes três, mostram-no em diálogo próximo com o público, misturando delicadeza acústica, pulsação rítmica e uma permanente disponibilidade para ouvir o tempo presente e comentá‑lo em palco.

Há uma generosidade na sua presença em palco, uma entrega sem artifício, que transforma o concerto numa conversa longa e necessária entre ele e quem o ouve.

Em tempos de ruído rápido e memória curta, Sérgio Godinho e os músicos que o acompanham, lembram-nos que a canção pode ser lugar de amor (Às Vezes O Amor ainda está bem vivo), de encontro, pensamento e dança ao mesmo tempo. É urgente vê-lo em palco porque cada concerto é uma aula viva de como a música portuguesa dialoga com o mundo sem perder o sotaque, abrindo janelas para outras geografias sonoras, sem fechar a porta de casa.

Em 2026, chega com a energia de quem prepara um novo disco de canções inéditas onde essa identidade sonora madura, entre a crónica e o sonho, entre a ferida e a festa, se renova mais uma vez, alimentada por décadas de estrada.

 

 

CM Loulé