Cláudio Lima, Presidente da Direção da Delegação do Algarve da Ordem dos Economistas
Na economia, como na vida, a clareza de objetivos é o GPS que evita a caminhada sem sentido. Para aferir esse progresso, recorremos a métricas. Contudo, surge aqui um fenómeno perverso: quando o indicador passa a ser o fim e não o meio. É o que define a Lei de Goodhart.
Charles Goodhart, Professor Emérito da London School of Economics, sintetizou: “Quando uma medida se torna um alvo, deixa de ser uma boa medida”. A ideia é simples, mas profunda: ao usarmos um indicador para substituir o que se pretende medir, a adaptação natural humana foca-se em maximizar esse número, distorcendo o propósito original.
O Triunfo do número sobre a Realidade
Os exemplos abundam no nosso quotidiano. No mundo académico, a pressão pelo volume de publicações ("publicar ou perecer") muitas vezes asfixia a investigação de impacto. No sistema educativo, o foco excessivo nos resultados de exames pode formar profissionais exímios a "fazer testes e obter boas notas", mas menos preparados para a complexidade do mercado de trabalho.
Na política, a tirania das sondagens de aprovação leva, frequentemente, à escolha de medidas populares em detrimento de reformas estruturantes que, embora necessárias, não geram dividendos eleitorais imediatos.
Já no setor empresarial, o caso de um Call-Center em Portugal é paradigmático: ao passar a remunerar os seus trabalhadores por chamadas atendidas, o volume duplicou, mas a qualidade ruiu — os funcionários atendiam e desligavam rapidamente para bater a meta. Inconscientemente, caiu-se na armadilha de Goodhart.
Estratégias para uma Medição Inteligente
A solução não é abdicar da análise estatística, mas sim refiná-la. Para manter o foco no que realmente importa, destacam-se quatro abordagens:
Métricas Autênticas: Selecionar indicadores que reflitam fielmente o resultado real esperado.
Análises Pré-Mortem: Identificar antecipadamente como uma métrica pode incentivar comportamentos indesejados.
Indicadores de Tensão: Cruzar métricas opostas (ex: quantidade vs. qualidade) para criar um equilíbrio saudável.
Visão Abrangente: Utilizar ferramentas como o Balanced Scorecard, integrando KPIs (indicadores de performance) financeiros, de processos e de satisfação do cliente.
Em suma, as métricas devem iluminar o caminho, nunca substituir o destino. Só assim garantiremos que o progresso é real e não apenas um número conveniente num relatório.
Sobre o Autor: Cláudio Lima é Presidente da Direção Regional da Ordem dos Economistas do Algarve. Conta com uma vasta experiência nos setores público e privado. A sua participação cívica inclui o envolvimento em diversas associações, com destaque para a Confraria Gastronómica da Serra do Caldeirão, onde é Presidente do Conselho Fiscal, da Associação de Futebol do Algarve onde é vogal do Conselho Fiscal, e conta com perto de 20 anos em funções de natureza político-partidária ao serviço do PSD, tendo sido Presidente da Concelhia de Loulé entre 2022 e 2026 (fevereiro).
