Cancro do ovário: Mais informação e rapidez no acesso ao diagnóstico

19:04 - 12/05/2026 OPINIÃO
Cláudia Fraga, Presidente da MOG

O desejo fundamental de quem recebe um diagnóstico oncológico é simples e profundamente humano: encontrar o melhor tratamento possível para a doença, que lhe permita viver mais tempo e com qualidade. No cancro do ovário, este desejo confronta-se com uma dura realidade. É um dos cancros ginecológicos mais graves, diagnosticado frequentemente em estádios avançados, com uma das taxas de mortalidade mais elevadas entre os cancros que afetam as mulheres.

Como alguém que vive esta doença e preside a uma associação dedicada aos cancros ginecológicos, sei bem o que significa receber este diagnóstico. Tentar compreender resultados complexos, navegar um sistema de saúde fragmentado e procurar garantir que se está a receber o melhor tratamento disponível, o que nem sempre é uma certeza fácil de obter.

Um dos aspetos que mais urge mudar é o do diagnóstico tardio. Por ter sintomas inespecíficos e não existir um método de rastreio fiável e eficaz, a maioria dos casos de cancro do ovário é diagnosticada em fase avançada, o que condiciona profundamente as opções terapêuticas e os resultados. Aumentar o conhecimento sobre os sinais de alerta junto das mulheres, mas também dos profissionais de cuidados de saúde primários, é uma responsabilidade que deve ser partilhada e pode fazer a diferença entre um diagnóstico precoce e uma doença avançada.

A desigualdade atravessa também outras dimensões. No cancro do ovário, os resultados dependem muito de onde e por quem a mulher é tratada. O elevado número de hospitais onde se realizam estas cirurgias significa que nem todas são feitas por equipas verdadeiramente especializadas. Ora, isto tem implicações muito concretas no tratamento subsequente, na resposta às terapêuticas e, em última análise, nos resultados em saúde.

Ao falar diariamente com mulheres com este diagnóstico, esta realidade levanta uma pergunta simples, mas incómoda: como podemos falar de tratamentos cada vez mais sofisticados se não garantimos, desde logo, que todas são acompanhadas e operadas no local certo, pela equipa certa? Como é que ainda não temos, em Portugal, centros de referência para os cancros ginecológicos?

A lotaria do código postal não pode ditar quem acede ao melhor tratamento. É também por isso que defendo que a ginecologia oncológica deve ser reconhecida como uma especialidade própria, e não apenas como uma subespecialidade da ginecologia e obstetrícia. A complexidade destes cancros, das cirurgias e das decisões terapêuticas exige formação dedicada, experiência acumulada e equipas altamente diferenciadas.

Outra questão igualmente relevante prende-se com a hereditariedade. Uma percentagem significativa dos cancros do ovário associa-se a mutações genéticas hereditárias, nomeadamente nos genes BRCA1 e BRCA2. Além de beneficiar a doente, os testes genéticos são determinantes para a escolha das terapêuticas mais adequadas e podem ser vitais para que os seus familiares diretos tomem decisões informadas sobre a sua própria saúde. Em Portugal, o acesso ao aconselhamento genético e aos testes necessários continua desigual e, sobretudo, demorado. Não podem ser tratados como um complemento opcional e têm de chegar a todas as mulheres com este diagnóstico.

A informação funciona igualmente como uma forma de equidade. Na MOG, verificamos que muitas mulheres sentem constrangimento em fazer perguntas aos médicos. Ignoram que podem pedir esclarecimentos ou que têm o direito de participar de forma informada nas decisões sobre o seu tratamento. Algumas tendem a achar que pedir uma segunda opinião pode ser mal visto.

É um facto que a literacia em saúde não se distribui de forma igual e que essa desigualdade se traduz em consequências clínicas reais. Traduzir a ciência para a vida concreta de cada mulher, construir redes de apoio entre pares e defender direitos com conhecimento fundamentado define o trabalho das associações de doentes todos os dias.

As decisões terapêuticas devem também respeitar a pessoa como um todo. Para algumas mulheres, a prioridade reside em viver mais; para outras, em viver melhor; para muitas, em encontrar equilíbrio entre os dois aspetos. Reduzir toxicidade, bem como preservar autonomia e qualidade de vida correspondem a objetivos legítimos que devem entrar nas decisões, como parte integrante dos cuidados.

Numa altura em que assinalamos o Dia Mundial do Cancro do Ovário, importa reconhecer os avanços científicos reais, as novas terapêuticas disponíveis e a esperança genuína que representam. Mas essa esperança só se torna transformadora quando chega a todas as mulheres, independentemente de onde vivem, do hospital onde recebem tratamento ou do seu nível de literacia em saúde. O caminho constrói-se em rede, entre ciência, cuidados de saúde e associações de doentes, para que nenhuma mulher fique para trás.

 

LPM