A escritora Lídia Jorge, distinguida este ano com o Prémio Pessoa, recebe na próxima quarta-feira, em Santiago de Compostela, o Prémio Arcebispo Juan de San Clemente, na categoria de Narrativas Internacionais, divulgou a sua editora.
O galardão é organizado pela Escola Secundária Rosalía de Castro, na capital galega, e distingue o romance “Misericórdia”, editado em Espanha pela La Umbra y la Solana.
“Misericórdia” foi publicado em Portugal na primeira quinzena de outubro de 2022. Na ocasião, em entrevista à agência Lusa, Lídia Jorge afirmou que é “um livro sobre o esplendor da vida” e a “crença em valores”.
O livro foi escrito a pedido da mãe da autora, que morreu a 19 de abril de 2020, numa instituição de solidariedade social, no Algarve, tendo sido uma das primeiras vítimas da covid-19 no sul do país, disse então a escritora.
“A minha mãe pediu-me várias vezes para escrever um livro que se chamasse ‘misericórdia’, porque ela achava que havia um desentendimento, no tratamento das pessoas, achava que as pessoas procuravam ser amadas, mas não as entendiam. Pediu-me que escrevesse um livro chamado ‘misericórdia’, para que se tivesse compaixão pelas pessoas e as tratássemos como se fossem pessoas na plenitude da vida”.
Em edições anteriores, o galardão galego foi entregue aos autores José Saramago, Mario Vargas Llosa, Antonio Tabucchi, Paul Auster, Haruki Murakami, Hang Kang e Maggie O’Farrel, que venceu no ano passado.
O júri do Prémio Juan de San Clemente é composto apenas por estudantes do ensino secundário de seis escolas galegas, uma de Madrid e três da Europa, e entre os seus elementos estiveram os alunos Jairo Barros e Cristina Perez, que justificaram a escolha “pela vertente lírica que atravessa todo o texto”, e também “pelo retrato de beleza que é oferecido ao leitor”, sem esquecer que nele existe “uma visão renovada sobre os nossos idosos”, segundo comunicado das Publicações D. Quixote, do grupo LeYa.
A cerimónia de entrega do Prémio Juan de San Clemente é na próxima quarta-feira, às 18:00 locais (17:00 em Lisboa), na Escola Secundária Rosalía de Castro, e conta com a presença dos vencedores nas outras duas categorias, Ledicia Costas, por "Piel de Cordero" (Narrativas em Galego) e David Uclés, com o romance “A Península das Casas Vazias” (Narrativas Castelhanas), e que a Dom Quixote publicará em março próximo.
Lídia Jorge tem ainda agendado, antes da cerimónia, um encontro com os dez membros do júri.
Esta distinção, realça a D. Quixote, “vem confirmar” que “Misericórdia” é “um dos romances mais reconhecidos e celebrados da literatura portuguesa nos últimos anos”.
Em declarações à Lusa, a autora sublinhou que “não é um livro mórbido”. Para Lídia Jorge não foi nem triste, nem doloroso escrever este livro, pois “é sobre a vida”.
“É um livro sobre a vida, absolutamente; sobre o esplendor da vida que acontece quando as pessoas estão para partir, foi isso que eu verifiquei, nos atos de resistência magníficos que as pessoas têm no fim da vida”.
Lídia Jorge disse que, pelo que observou e foi a sua experiência, “há um desentendimento e uma forma de encarar esse período [final] da vida que [lhe] parece errado”
“Misericórdia” “não é um livro sobre a morte, é um livro sobre a resistência e é um livro sobre a vida”.
Lusa