Nuno Vaz Correia | Licenciado em Comunicação | nunovazcorreia@gmail.com
Mais do que saber se André Ventura quer ganhar as eleições presidenciais, importa compreender para que serve, politicamente, a sua candidatura, especialmente agora que passou à segunda volta das eleições presidenciais.
Acredito que o objetivo central de André Ventura não é a vitória em Belém, mas a conquista de poder político indireto através de uma votação elevada, capaz de reforçar a sua posição no sistema e no espaço público. E, paradoxalmente, essa estratégia explica também porque ganhar pode ser um erro para André Ventura, a bem do CHEGA, e para a sua própria ambição, ser primeiro-ministro e governar o pais.
A eventual eleição de André Ventura para presidente da República levanta uma questão política incontornável: ao conquistar Belém, André Ventura arrisca perder o CHEGA. Não por incompatibilidade ideológica, mas por uma consequência estrutural do próprio sistema político português e da natureza do partido que lidera.
O chefe de Estado não governa nem lidera maiorias parlamentares. O seu poder exerce-se sobretudo no plano da influência institucional, da arbitragem e da palavra. Para alguém cuja força política resulta do combate permanente, da provocação e da polarização, Belém é um espaço de contenção, não de expansão.
O CHEGA é, desde a sua origem, um partido fortemente personalizado. A sua identidade política, discurso e capacidade de mobilização eleitoral estão profundamente ligados a uma única figura: André Ventura. Não se trata apenas de liderança formal, mas de centralidade absoluta. O partido não se organizou como uma estrutura colegial nem construiu uma elite dirigente alternativa com autonomia política ou capital eleitoral próprio. Mais grave ainda: não existe no CHEGA uma segunda figura com a mesma popularidade, capacidade comunicacional ou força mobilizadora que o seu atual presidente. O partido não preparou a sucessão, nem criou lideranças regionais ou nacionais capazes de substituir o fundador com credibilidade junto do eleitorado. Sem Ventura no centro do palco, o CHEGA perde identidade, coerência e direção estratégica.
Ao ser eleito presidente da República, André Ventura é obrigado a afastar-se da liderança partidária ativa. O cargo exige neutralidade institucional e distanciamento da luta político-partidária quotidiana. Mesmo num regime semipresidencialista, o presidente deve afastar-se da condução partidária direta, sob pena de deslegitimação institucional e conflito permanente com o sistema democrático. A neutralidade, mais do que um princípio jurídico, é uma exigência política e simbólica do cargo.
É verdade que o regime português confere ao presidente mais poderes do que num sistema puramente parlamentar. O chefe de Estado pode dissolver a Assembleia da República, vetar diplomas, nomear e demitir o primeiro-ministro em determinadas circunstâncias e exercer influência decisiva em momentos de crise política, mas o poder do presidente da República, mesmo num sistema semipresidencialista, não é de liderança partidária permanente nem de combate político diário. Para um partido como o CHEGA, cuja força reside no confronto direto, na retórica disruptiva e na presença constante do seu líder na arena política, essa mudança é estruturalmente desestabilizadora.
Mesmo que André Ventura, a partir de Belém, procure exercer influência informal sobre o partido, essa influência será sempre limitada, indireta e condicionada pelo seu papel institucional. O presidente da República não pode, nem deve, agir como líder de oposição ou chefe de partido, sob pena de esvaziar a função presidencial e provocar bloqueios institucionais.
Assim, o CHEGA ficaria politicamente órfão: sem comando claro, sem discurso unificador e sem capacidade de afirmação autónoma no sistema partidário. Poderia manter representação parlamentar, mas dificilmente conservaria a mesma força eleitoral, coesão interna e impacto político.
André Ventura, presidente da República, longe de reforçar o CHEGA, pode significar o seu enfraquecimento estrutural. Ao subir ao mais alto cargo do Estado, Ventura deixa para trás o papel que lhe deu relevância política. Ganha Belém, mas corre o risco de perder o partido que construiu à sua imagem com consequências que poderão redefinir o futuro do CHEGA no sistema político português.
A eleição como presidente da República seria apenas uma vitória pessoal e, muito provavelmente, o início do declínio do CHEGA enquanto partido político central no sistema. Uma ironia difícil de ignorar e um dilema que o eleitorado, e o próprio CHEGA, não podem fingir que não existe.
Pelo contrário, uma votação elevada sem vitória é politicamente rentável. Permite a André Ventura reclamar legitimidade popular reforçada, apresentar-se como líder de uma fatia significativa do eleitorado e aumentar o seu poder reivindicativo junto do Governo, do Parlamento e do espaço mediático. Cada ponto percentual transforma-se em capital político, pressão, influência e capacidade de impor temas à agenda pública.
Nesse cenário, Ventura mantém o controlo total do CHEGA, reforça a sua liderança interna e consolida a narrativa de confronto com o “sistema”, agora sustentada por números eleitorais expressivos. Perder as presidenciais torna-se, assim, uma vitória estratégica.
A candidatura presidencial surge, então, menos como um projeto institucional e mais como uma operação política de afirmação de força. Um plebiscito informal à liderança de André Ventura e ao discurso do CHEGA. O resultado desejado não é ocupar Belém, mas sair das urnas com um mandato político ampliado, sem os constrangimentos constitucionais do cargo.
No fundo, André Ventura não precisa de ser presidente da República para ganhar poder. Precisa apenas de votos suficientes para transformar uma derrota formal numa vitória política. Ganhar as eleições poderia significar perder o partido. Perder, com uma votação elevada, significa ganhar influência, manter o comando e reforçar o seu papel como principal fator de desestabilização e pressão no sistema político português.
É essa, tudo indica, a verdadeira equação estratégica por detrás da candidatura. Uma jogada onde o objetivo não é Belém - é o poder.
Artigo publicado a 23/01/2026 em www.observador.pt