Jean Carlos Vieira Santos | Professor Universitário | svcjean@yahoo.com.br
Vamos jantar na Feira de Santa Iria, em Faro? Quando recebi esse gentil convite de uma amiga do norte de Portugal e residente no Algarve, não tive dúvidas e confirmei as minhas intenções sem a questionar; afinal, estava pronta para viver essa experiência de sabores e aromas. Então lá estávamos e, depois de terminarmos o prato principal, sugeriram-me, como sobremesa, uma fatia de pudim molotof que até então não conhecia.
A par de algumas informações, sabia que a doçaria portuguesa, como as receitas de Maria José Dias apresentadas no Jornal A Voz de Loulé, está ligada ao trabalho, à vida do dia a dia, às histórias dos lugares, à criação social e aos grandes valores associados à cultura encontrada em cada cozinha comercial ou familiar, sendo sinónimos de bibliotecas com incontáveis elementos do saber-fazer.
Sei que, em muitos casos, não é possível conhecer com precisão a origem de cada doce consumido, pois acredito que vários constituem uma riqueza coletiva desde a raiz. Assim, há muito mais a descobrir, principalmente sobre as receitas gastronómicas, mas, depois deste encontro e de outros (re)encontros com o referido pudim, não hesito em afirmar que o molotof é quase tão icónico quanto o folhado de Loulé e culturalmente relevante em comparação com as chaminés algarvias – é, pois, um protagonista das ementas portuguesas.
O deleitoso pudim de claras de ovos e cheio de caramelo, cuja origem apresenta diferentes teorias, é uma viagem de começo desconhecido; no entanto, sabemos onde vai terminar: seja numa mesa onde se partilham encontros ou simplesmente sentado sozinho, com infinitas possibilidades de desfrutar e saborear os doces da vida que possuem palcos para se apresentarem de facto.
Portanto, a experiência vivida e inédita fixou-se na minha memória, pois o Molotof da Feira de Santa Iria foi uma novidade inesquecível para esta viajante. Sempre que é possível regressar ao Algarve ou a outros sítios de Portugal, fica a expectativa de (re)encontro com essa saborosa sobremesa, pois da vida onde me encontro ficam as boas lembranças e a espera da próxima viagem.