ENTRE O SER E O DEVER SER

10:00 - 12/04/2026 OPINIƃO
Por: Padre Carlos Aquino | effata_37@hotmail.com

“A paz esteja convosco”

Na manhã da Ressurreição, segundo o testemunho dos Evangelhos, a primeira palavra de Cristo aos seus discípulos não foi uma explicação, nem um triunfo retumbante, nem sequer uma reprimenda pela fuga e pelo medo. Foi, simplesmente: “A paz esteja convosco.” Esta saudação, aparentemente simples, carrega uma profundidade que atravessa séculos e se impõe, hoje, com particular urgência, num mundo cada vez mais fragmentado e ferido pela violência, a injustiça e as guerras.

A paz que Cristo oferece não é ausência de conflito nem um estado de tranquilidade superficial. É uma paz que nasce da reconciliação com Deus, com os outros e consigo mesmo. Surge no meio do medo, das portas fechadas, das feridas ainda abertas. Não ignora a dor, mas transforma-a. É uma paz que não apaga as cicatrizes, mas dá-lhes sentido. O mundo contemporâneo, marcado por guerras persistentes, polarizações ideológicas, desigualdades gritantes e uma crescente cultura de desconfiança, parece cada vez mais distante dessa paz. Multiplicam-se discursos de divisão, reforçam-se muros, físicos e simbólicos e instala-se uma inquietação que nenhuma tecnologia consegue dissipar.

Neste contexto, a saudação do Ressuscitado deixa de ser apenas uma memória litúrgica para se tornar um desafio concreto. Que significa, hoje, acolher e viver essa paz? Em primeiro lugar, implica coragem. A paz evangélica não é passividade, mas compromisso ativo com a justiça e com a dignidade humana. Exige a capacidade de escutar o outro, sobretudo o diferente, num tempo em que o ruído das certezas impede o diálogo verdadeiro e justo. Construir a paz começa por desarmar o coração. Em segundo lugar, requer esperança. Não uma esperança ingênua, mas aquela que persiste mesmo quando as evidências parecem contrárias. A Ressurreição afirma que o mal e a morte não têm a última palavra, uma mensagem profundamente contra a cultura hodierna, num mundo habituado ao imediatismo e ao pragmatismo.

Por fim, viver esta paz implica responsabilidade pessoal e coletiva. Não se trata apenas de grandes decisões políticas ou diplomáticas, mas de gestos quotidianos: na forma como falamos, julgamos, partilhamos e cuidamos. A paz começa nos pequenos espaços onde a vida acontece. A saudação de Cristo Ressuscitado ecoa, portanto, como uma proposta exigente e transformadora. Não promete facilidade, mas oferece sentido. Num tempo em que tantas vozes semeiam ruído e proclamam medo ou indiferença, talvez seja precisamente esta palavra, paz, que mais precisamos reaprender a escutar e a viver. Porque, no fundo, a verdadeira paz não se impõe: constrói-se. E começa, sempre, no coração de cada um. Acontecerá Páscoa em nós se acolhermos sem medos e vergonha a verdadeira Paz!