Jean Carlos Vieira Santos | Professor Universitário | svcjean@yahoo.com.br
Arraiada de sábado, última semana do verão, quando partimos de Faro com destino a Alcoutim para um dia de lazer e de descobertas sobre o centro histórico dessa vila raiana. O território é pontuado pela sobriedade do rio Guadiana, pelo seu castelo e por artérias impregnadas de reminiscências, instando-nos a vivências que se eternizam no âmago.
Diante do silêncio da estrada, Odeleite estava à vista; então, olhámos para a paisagem, e a beleza desse caminho levou-nos a um diálogo acerca de algumas leituras realizadas sobre o Algarve – foi, pois, um tempo de celebração da viagem, de destaque às investigações sobre o destino turístico numa ligação regional verdadeira. Assim, não poderia faltar espaço para o manuscrito “Uma Excursão à Serra do Algarve”, de Manuel Viegas Guerreiro.
Tal viagem revelou o percurso singular de linhas “sinuosas do relevo, na assimetria dos bosques de sobreiros, no flexuoso dos troncos e dos ramos, na variedade discreta das cores, sob a ardência do sol, há uma vida toda interior”. Com estas palavras, Guerreiro demonstra que as serras do sul de Portugal abarcam linguagem, paisagem e pensamento.
Nesse processo viajante chegámos a Alcoutim, que representou uma descoberta, um mergulho profundo nos painéis de azulejos da Rua D. Fernando, um dos cartões-postais desse nobre lugar. Ainda conhecemos a olaria local, a Estátua do Pescador e outros territórios, mas o melhor foi caminhar como se o tempo fosse marcado pela contemplação, sem deixar de apreciar a gastronomia que abraça o visitante e oferece experiências atuais sem perder a tradição.
Durante a visita, Manuel Guerreiro novamente dialoga connosco: “como bom algarvio, respeita o religioso emudecimento em que me absorvo por algum tempo”; ou seja, revela-se religioso ao identificar elementos que apontam a atmosfera tranquila entre o rio e a serra, os valores da terra e o descer até à beira-rio, cuja paisagem é marcada pela sóbria ermida de Santo António. Ademais, é possível conhecer muitos sítios a pé e com fé, a partir do espaço religioso algarvio.
Para finalizar a jornada, antes do regresso a Faro, sentámo-nos para um café à sombra das árvores, na orla do Guadiana, com uma chávena de emoções para um dia de celebração da vida. Alcoutim foi o ponto de destino e despedida, oferecendo o ensejo ideal para tecer narrativas de um Algarve que se desvela por meio da exegese de Manuel Viegas Guerreiro.