O Conselho Regional de Inovação do Algarve (CIRA), dinamizado pela CCDR Algarve, reuniu no passado dia 26 de maio de 2026, promovendo um amplo debate sobre os desafios, oportunidades e prioridades estratégicas da Estratégia Regional de Especialização Inteligente (EREI), num contexto marcado pela evolução das políticas europeias de inovação e competitividade.
Na sessão de abertura, Cristiano Cabrita, Vice-Presidente da CCDR Algarve, destacou a importância do envolvimento coletivo dos diversos stakeholders regionais no desenvolvimento estratégico do Algarve, sublinhando que o sucesso da região depende do compromisso conjunto e do conhecimento prático do território. O Vice-Presidente defendeu um modelo de governação colaborativo, assente na cooperação entre entidades públicas, privadas, académicas e sociedade civil, considerando essencial o reforço da chamada “hélice quádrupla” para a criação de valor e impulsionar o desenvolvimento regional. Sublinhou igualmente o papel estruturante da EREI e a evolução muito positiva do ecossistema regional de inovação em áreas estratégicas como a saúde, a cultura, o turismo e as indústrias criativas.
Cristiano Cabrita salientou, ainda, que o Algarve atravessa atualmente um momento de transformação institucional, decorrente das novas competências atribuídas às CCDR, reforçando que esta evolução exige maior articulação, cooperação e planeamento estratégico entre todos os agentes regionais.
A intervenção de Duarte Rodrigues, Vice-Presidente da Agência para o Desenvolvimento e Coesão, centrou-se na evolução das políticas europeias de inovação e no futuro da Estratégia de Especialização Inteligente. Duarte Rodrigues destacou que a EREI entra agora numa nova fase, deixando de estar associada à obrigatoriedade de acesso aos fundos europeus e passando a depender do seu valor efetivo para os ecossistemas regionais de inovação. Neste contexto, mencionou a necessidade de adaptação da estratégia regional às novas prioridades europeias, fortemente orientadas para a competitividade e para as tecnologias críticas, nomeadamente nas áreas do digital, das tecnologias limpas, da biotecnologia e da defesa. Defendeu igualmente o reforço da articulação entre os níveis regional, nacional e europeu, bem como a integração de diferentes instrumentos de financiamento e políticas públicas numa abordagem mais coerente e estratégica.
O primeiro painel, subordinado ao tema “Especialização Inteligente no Algarve”, contou com a participação de Hugo Pinto, Professor da Faculdade de Economia e Investigador do CinTurs da Universidade do Algarve, que apresentou a comunicação “Estratégias de Especialização Inteligente: lições, impactos e futuro nas políticas regionais de inovação”. A apresentação abordou as Estratégias de Especialização Inteligente (RIS3) enquanto instrumento central das políticas regionais de inovação da União Europeia, destacando o seu papel na promoção da transformação estrutural das regiões através da concentração de recursos em domínios onde estas possuem vantagens competitivas.
Estas estratégias, introduzidas como condição de acesso a fundos europeus no período 2014-2020 e mantidas no atual quadro comunitário, baseiam-se numa lógica de especialização focada e territorial, articulando conhecimento local com oportunidades globais e promovendo a cooperação entre empresas, instituições de ensino e investigação, administração pública e sociedade civil. A implementação das RIS3 enquadra-se nas novas políticas industriais, assentes numa abordagem territorial e suportada por evidência, exigindo a definição de uma visão estratégica partilhada, a seleção criteriosa de prioridades e a concretização de ações transformadoras. Este processo enfrenta desafios significativos, nomeadamente a dificuldade de conciliar interesses distintos entre os vários atores e de assegurar liderança e legitimidade política na definição de prioridades, necessariamente dinâmicas e evolutivas.
A estratégia implica igualmente uma reconfiguração dos papéis no ecossistema regional de inovação: as empresas assumem um papel ativo na co-definição de políticas; as instituições científicas reforçam a ligação entre conhecimento e desenvolvimento regional; o Estado atua como agente mobilizador e indutor de investimento; e a sociedade participa na co-criação de soluções. Neste contexto, a governação multinível revela-se essencial, articulando os níveis regional e nacional.
Em Portugal, este modelo materializou-se através da Estratégia Nacional de Especialização Inteligente (ENEI) e das estratégias regionais desenvolvidas pelas CCDR. No caso do Algarve, a estratégia regional está alinhada com a ENEI 2030 e assenta em domínios como o turismo e o mar, a energia e ambiente, o agroalimentar, as tecnologias de informação e as indústrias culturais e criativas, procurando valorizar as especificidades do território. A apresentação sublinhou ainda a importância de aprender com o passado, nomeadamente através da análise de clusters e trajetórias de especialização, que condicionam as opções estratégicas atuais, ainda que não as determinem. Foram identificados fatores críticos para o sucesso das RIS3, como o reforço do foco estratégico, a promoção da colaboração intersectorial, a articulação de instrumentos financeiros, o fortalecimento da governação e da monitorização, bem como a definição de uma visão clara de longo prazo para o desenvolvimento regional.
O painel “ALGARVE 2030 e a Especialização Inteligente: dos desafios da execução às novas prioridades estratégicas” contou com a intervenção de Aquiles Marreiros, Vogal Executivo do Programa Regional ALGARVE 2030, que destacou o papel transformador do Conselho Regional de Inovação do Algarve na consolidação do ecossistema regional de inovação.
Aquiles Marreiros evidenciou igualmente a evolução da estratégia regional desde os primeiros instrumentos de inovação até à atual EREI, destacando ganhos significativos ao nível da governação, organização e capacidade de execução. Referiu também exemplos concretos de projetos colaborativos com impacto regional, como o Observatório do Turismo Sustentável do Algarve e o projeto Culatra 2030. O Vogal Executivo do ALGARVE 2030 destacou, ainda, a crescente diversificação da economia regional, com o reforço de competências em áreas como saúde, tecnologia, sustentabilidade, digitalização e economia do mar, bem como os novos desafios colocados pelos instrumentos STEP e pelas tecnologias de duplo uso associadas à área da defesa.
O segundo painel, dedicado ao tema “Impacto das Plataformas de Inovação e Colaboração na Estratégia Regional”, contou com a intervenção de Maria de Lurdes Carvalho, Diretora da Unidade de Planeamento e Desenvolvimento Regional da CCDR Algarve, que apresentou o balanço das atividades desenvolvidas no âmbito da EREI.
Maria de Lurdes Carvalho salientou o trabalho realizado pelas plataformas de inovação e colaboração nas áreas das indústrias culturais e criativas, saúde, bem-estar e longevidade, bem como turismo, evidenciando o papel dos Espaços de Descoberta Empreendedora (EDE) na articulação entre atores regionais e na geração de novas ideias e projetos.
Foram igualmente apresentados resultados concretos em matéria de investigação, inovação e competitividade empresarial, nomeadamente projetos ligados à economia azul, aquacultura sustentável, biotecnologia, transição digital, economia circular e energias renováveis, bem como o acesso a instrumentos de financiamento como o Horizonte Europa e o Plano de Recuperação e Resiliência (PRR).
Na sessão de encerramento, José Apolinário, Presidente do Conselho Diretivo da CCDR Algarve, reforçou a importância do envolvimento ativo de todos os agentes regionais na consolidação do sistema regional de inovação e na preparação do próximo quadro financeiro europeu para o período 2028-2034.
O Presidente da CCDR Algarve alertou para a necessidade de garantir estratégias adaptadas às especificidades regionais, defendendo maior autonomia na definição das prioridades e uma distribuição equilibrada dos instrumentos financeiros. Sublinhou igualmente a importância de reforçar o investimento em investigação e desenvolvimento na região, consolidando projetos de maior maturidade e ligação às empresas.
José Apolinário destacou também os progressos alcançados pelo Algarve em áreas como tecnologia, digitalização, biotecnologia, saúde e turismo, valorizando o trabalho colaborativo desenvolvido pelo ecossistema regional de inovação e conquistas recentes, como o financiamento obtido pelo ICArEHB no âmbito do programa Teaming for Excellence.
A sessão terminou com um apelo à continuidade do compromisso coletivo entre instituições, empresas, centros de investigação e sociedade civil, considerado fundamental para assegurar um Algarve mais inovador, competitivo e sustentável.
CCDR Algarve