Paulo Freitas do Amaral, Professor e Autor
Lembram-se de Roger Milla?
Eu lembro-me bem. Corria o Mundial de Itália, em 1990, e eu era ainda um jovem apaixonado pelo futebol e pela História que este também vai escrevendo. Havia algo de extraordinário naquele avançado dos Camarões. Muitas vezes começava no banco, outras era lançado de início, mas bastava entrar em campo para mudar o rumo de um jogo. Os adversários receavam-no, os colegas acreditavam mais e o público levantava-se das cadeiras à espera de mais um daqueles momentos que acabariam por ficar para sempre na memória do futebol.
Passaram quase quarenta anos e, quando há poucos meses me sentei no Estádio da Luz para assistir ao Portugal-Escócia, Roger Milla não me saía da cabeça. Muitos estranharão esta associação. O que poderia ter em comum um avançado camaronês de 1990 com Cristiano Ronaldo? A resposta surgiu poucos minutos depois. Roberto Martínez chamou Ronaldo ao jogo no minuto 80, ainda o jogo estava empatado. Bastaram alguns instantes para o estádio mudar de ambiente, tudo se galvanizou. Os adversários passaram a olhar mais para um homem do que para a bola, os colegas ganharam uma confiança renovada e Portugal encontrou o caminho da vitória. Ronaldo marcou, desempatou o jogo e deu a vitória a Portugal no dia 8 e setembro de 2024, e, durante aqueles minutos, senti exatamente aquilo que tinha sentido décadas antes ao ver Roger Milla: há jogadores que deixam de ser apenas futebolistas. Tornam-se acontecimentos.
É por isso que considero um erro pensar que Cristiano Ronaldo não deve fazer parte da seleção portuguesa no Mundial de 2030.
Repare-se que não estou a defender que seja titular por decreto. O futebol continua a ser um jogo de mérito, de rendimento e de forma física. Mas entre ser titular indiscutível e ficar de fora existe um enorme espaço. Um jogador como Cristiano Ronaldo pode entrar quinze ou vinte minutos, pode ser utilizado em momentos específicos, pode decidir partidas e, sobretudo, pode provocar um impacto psicológico que muito poucos atletas na história do futebol conseguiram produzir.
Os treinadores sabem-no. Os adversários sabem-no. Quando Cristiano Ronaldo se levanta do banco, toda a estratégia muda. Há defesas que recuam alguns metros, há marcações que se alteram, há colegas que acreditam um pouco mais. Nem tudo no futebol se mede em quilómetros percorridos ou em estatísticas. Existem jogadores cuja simples presença altera o estado emocional de uma equipa inteira.
Mas há outra razão, talvez ainda mais importante.
O Mundial de 2030 não será um Campeonato do Mundo qualquer. Será o Mundial do Centenário e ficará para sempre ligado à História de Portugal. Pela primeira vez, o nosso país será um dos organizadores da maior competição desportiva do planeta. Daqui a cinquenta ou cem anos, quando alguém abrir um livro de História do desporto português, encontrará inevitavelmente fotografias desse Mundial. Seria difícil explicar às futuras gerações que o maior futebolista português de todos os tempos não fazia parte dessa imagem.
Há quem olhe apenas para a idade de Cristiano Ronaldo. Eu prefiro olhar para a História.
Roger Milla tornou-se eterno porque, aos quarenta e dois anos, continuou a escrever páginas inesquecíveis em Campeonatos do Mundo. Cristiano Ronaldo poderá chegar aos quarenta e cinco em 2030 e ultrapassar precisamente esse marco histórico. Não se trata apenas de um recorde. Trata-se de mais um capítulo de uma carreira que há muito deixou de pertencer apenas ao futebol português para entrar definitivamente na História do desporto mundial.
Mas existe um argumento que, para mim, ultrapassa todos os outros.
A marca Cristiano Ronaldo é, neste momento, maior do que a própria marca Portugal.
Pode parecer uma afirmação ousada, mas basta viajar um pouco pelo mundo para perceber que é verdadeira. Em aldeias africanas, em cidades asiáticas, em escolas da América Latina ou nas praias do Médio Oriente, milhões de crianças conhecem primeiro Cristiano Ronaldo e só depois descobrem que existe um país chamado Portugal. Pouquíssimos portugueses, ao longo de mais de oito séculos de História, conseguiram levar o nome da sua pátria tão longe. Nem grandes navegadores, nem escritores, nem cientistas, nem políticos alcançaram uma notoriedade global comparável.
Portugal gastaria centenas de milhões de euros em campanhas de promoção turística sem conseguir obter a projeção internacional que Cristiano Ronaldo proporciona sempre que entra em campo com a camisola das quinas. Cada fotografia, cada transmissão televisiva, cada conferência de imprensa, cada celebração de um golo transforma-se automaticamente numa campanha mundial de promoção do nosso país.
Por isso, olhar para Cristiano Ronaldo apenas como um avançado é reduzir a dimensão daquilo que ele representa. Ronaldo é hoje um património nacional. É um dos maiores embaixadores que Portugal alguma vez teve.
O Mundial de 2030 também viverá de histórias. A FIFA sabe-o. Os patrocinadores sabem-no. Os adeptos sabem-no. Milhões de pessoas comprarão um bilhete não apenas para assistir a um jogo, mas para poderem dizer aos filhos e aos netos que estiveram presentes no último Campeonato do Mundo de Cristiano Ronaldo. Há momentos que transcendem o resultado e entram diretamente na memória coletiva dos povos.
Naturalmente, caberá ao selecionador decidir qual deverá ser o papel de Ronaldo. Talvez titular em alguns jogos, talvez suplente utilizado em momentos decisivos, talvez líder silencioso de um balneário onde muitos dos mais jovens cresceram a imitá-lo nos recreios das escolas. O que me parece verdadeiramente incompreensível seria imaginar um Mundial organizado por Portugal sem a presença daquele que, goste-se ou não, é o português mais conhecido do planeta.
Quando, daqui a muitos anos, alguém voltar a recordar Roger Milla, provavelmente não pensará apenas nos seus golos ou na dança junto à bandeirola de canto. Pensará na influência extraordinária de um jogador que parecia desafiar o tempo. Cristiano Ronaldo pode não chegar ao Mundial de 2030 para disputar todos os minutos, mas pode muito bem chegar para disputar os minutos que fazem a diferença.
Portugal não levará apenas um futebolista ao Mundial de 2030. Levará consigo o maior embaixador da sua História contemporânea. E um país inteligente nunca desperdiça um património dessa dimensão precisamente no momento em que o mundo inteiro estará a olhar para a sua casa.