ENTRE O SER E O DEVER SER

10:00 - 09/08/2026 OPINIƃO
Por: Padre Carlos Aquino | effata_37@hotmail.com

“Dai-lhes vós de comer”

Contemplando uma multidão faminta, os discípulos de um Mestre chamado Jesus, viam apenas a escassez: cinco pães, dois peixes e milhares de pessoas. Mas, Jesus, via uma oportunidade para transformar a lógica da falta na cultura da partilha e da generosidade desmedida. À primeira vista, esta passagem parece falar apenas de um milagre. Mas talvez o maior milagre não tenha sido a multiplicação dos alimentos, que não existiu. Talvez tenha sido a multiplicação da responsabilidade, que não se intuiu. Jesus não disse: "Esperem que tudo se resolva." Também não culpou a multidão faminta pela sua situação. Desafiou aqueles que estavam mais perto a fazerem, por justiça, a sua parte.

Vivemos tempos em que essa palavra continua profundamente atual. O mundo produz alimentos suficientes para todos e, no entanto, milhões de pessoas ainda passam fome. Nunca houve tanta capacidade tecnológica e, paradoxalmente, cresce profunda e desmedidamente o vazio e a solidão. Nunca se falou tanto de direitos humanos e, ainda assim, persistem guerras, deslocações forçadas, desigualdades e exclusão. A abundância convive com a carência. Por isso, "Dai-lhes vós de comer" é, hoje, um apelo que vai muito além do pão. Há quem tenha fome de justiça, de paz, de escuta, de dignidade e de esperança. Há famílias que enfrentam dificuldades económicas, jovens sem horizontes, idosos esquecidos, migrantes que procuram apenas uma oportunidade para recomeçar. Nem toda a fome é visível, mas todas merecem resposta. É fácil pensar que os grandes problemas pertencem aos governos, às organizações internacionais ou às instituições. Certamente têm responsabilidades insubstituíveis. Mas a interpelação de Jesus continua dirigida a cada pessoa.

O que podes fazer tu? O que posso fazer eu? A transformação da sociedade começa, muitas vezes, em pequenos gestos: repartir tempo, conhecimento, recursos, atenção e proximidade. A cultura dominante ensina-nos frequentemente a acumular, competir e proteger apenas o que é nosso. O Evangelho propõe outra lógica: a da comunhão. Quando o pouco que temos é colocado ao serviço dos outros, deixa de ser pouco. A generosidade possui uma capacidade de multiplicação que nenhuma estatística consegue medir. Os desafios do nosso tempo são enormes. As alterações climáticas ameaçam o futuro comum. A inteligência artificial levanta questões éticas inéditas. A polarização fragiliza o diálogo. O individualismo corrói os laços sociais. Perante tudo isto, podemos sentir-nos tão impotentes como os discípulos diante daquela multidão.

Contudo, o Evangelho recorda-nos que a solução nunca começa pela resignação. Começa pela disponibilidade. Deus não pede que resolvamos sozinhos todos os problemas do mundo; pede-nos que não cruzemos os braços diante deles. Talvez a pergunta decisiva não seja quantos pães temos, mas se estamos dispostos a partilhá-los. Porque a verdadeira fome da humanidade não será vencida apenas com recursos, mas com corações capazes de reconhecer no outro um irmão. Esta interpelação permanece, assim, como um programa de vida e um projeto de sociedade. Num mundo onde tantos esperam que alguém faça alguma coisa, o Evangelho lembra-nos que esse "alguém" pode começar por ser cada um de nós.