Accademia del Piacere
Terras sem Sombra estreia-se em Monforte: Viagem às raízes do Flamenco num concerto pleno de fantasia

12:04 - 20/09/2026 ALENTEJO
Do património sacro e da grande música espanhola ao «habitat das aves estepárias»

• O Festival Terras sem Sombra estreia-se em Monforte, a 26 de setembro (21h30), sábado, com o concerto «Rediscovering Spain: Glosas, Fantasias e Diferenças (Viagem às Raízes do Flamenco)», pelo ensemble espanhol Accademia del Piacere.

• Destaque para a presença em palco da bailaora Ana Morales, uma das figuras maiores da dança flamenca contemporânea.

• Atividade dedicada ao património, a 26 de setembro, sob o título «Monforte Sacro: Igrejas, Ermidas e Capelas da Vila e Aro», uma viagem pelas diferentes camadas da história religiosa, social e urbana de uma terra repleta de surpresas.

• Na manhã de domingo, 27 de setembro (09h30), a atividade de salvaguarda da biodiversidade tem por tema «Entre Planícies e Asas: Na Rota das Aves Estepárias do Alentejo».

• Todas as atividades são de acesso livre e gratuito.


Monforte conserva uma relação de particular relevo entre o núcleo histórico, o antigo aro da vila e a paisagem alto-alentejana que se alonga em redor. A localidade afirma também a sua cumplicidade com o património humano, material e imaterial, e os sistemas naturais, dimensões patenteadas na programação que o Festival Terras sem Sombra (TSS) apresenta na sua estreia neste concelho, a 26 e 27 de setembro. O programa propõe uma leitura do património religioso, um excecional concerto da Accademia del Piacere – com a bailaora Ana Morales, Prémio Nacional de Dança de Espanha –, dedicado às práticas musicais dos séculos XVI e XVII e às raízes do flamenco, e uma atividade de biodiversidade centrada na avifauna local e nos corredores verdes.

Uma viagem às raízes do flamenco

Momento maior da passagem do TSS por Monforte é aquele que nos oferece o concerto protagonizado pela Accademia del Piacere na noite de sábado, 26 de setembro (21h30). A magnífica igreja do Espírito Santo, na sede do concelho, acolhe «Rediscovering Spain: Glosas, Fantasias e Diferenças (Viagem às Raízes do Flamenco)». Uma iniciativa integrada na prestigiada Mostra Espanha 2026, habitualmente concentrado nos grandes centros, aqui num momento de descentralização integrado na programação do TSS.

Mais do que se limitar à leitura da partitura, o ensemble recupera a liberdade interpretativa dos músicos dos séculos XVI e XVII, que ornamentavam, transformavam e recriavam a música escrita, acrescentando variações e momentos de improvisação. O concerto oferece a rara oportunidade de escutar este repertório como matéria viva, em permanente construção diante do público, num monumento a que a riqueza da azulejaria dá um caráter excecional.

O alinhamento percorre autores-chave da música europeia do Renascimento e do Barroco, entre eles Antonio de Cabezón, Jacobus Arcadelt, Diego Ortiz, Santiago de Murcia, Giovanni Battista Vitali e Gaspar Sanz, numa viagem às práticas musicais que ajudam a compreender alguns dos caminhos que, muito mais tarde, desembocariam no universo do Flamenco.

Sob a direção de Fahmi Alqhai, a Accademia del Piacere destaca-se como um dos agrupamentos europeus de referência na música antiga, distinguido com prémios como o Opus Klassik, Choc de Classica e Giraldillo da Bienal de Flamenco de Sevilha. Alqhai, nascido em Sevilha em 1976, é uma das figuras de referência da viola da gamba e dirige o Festival de Música Antigua de Sevilla (FeMÀS).

Ao concerto junta-se a bailaora Ana Morales, insigne figura da dança flamenca contemporânea. Prémio Nacional de Dança em 2022, recebeu também o Giraldillo de Baile e três Prémios Lorca, num percurso que já a levou a palcos como o Sadler’s Wells, em Londres, e o Chaillot – Théâtre National de la Danse, em Paris.

Descobrir a história religiosa, cultura e social de Monforte

A tarde de sábado (15h00) propõe o percurso «Monforte Sacro: Igrejas, Ermidas e Capelas da Vila e Aro», uma incursão à antiga relação entre a vila e o território envolvente, o seu aro, e pela forma como os lugares de culto acompanharam a história e a expansão de Monforte. A atividade de património, com ponto de encontro na Praça da República, conta com a orientação de José António Falcão, historiador da arte, Rui Barradas e Ana Isa Rasquinho, técnicos superiores de Turismo.

Momento para paragens, entre outras, na igreja matriz de Santa Maria da Graça, na Capela dos Ossos, na Igreja da Ordem Terceira de São Francisco e na Igreja de Nossa Senhora da Conceição, no antigo rossio, afirmando a expansão para além do núcleo medieval.

Templos que se constituem como peças de uma mesma trama histórica, capaz de revelar a organização da vila, as formas de sociabilidade e devoção e o modo como Monforte se foi transformando ao longo dos séculos.

«Na Rota das Aves Estepárias do Alentejo»

Na manhã de domingo, 27 de setembro (9h30), a atividade «Entre Planícies e Asas: Na Rota das Aves Estepárias do Alentejo», com ponto de encontro na Praça da República, propõe um percurso por campos, montados, linhas de água e pequenas zonas húmidas. Orientado por João Gameiro, investigador do CIBIO, da Universidade do Porto, a atividade convida a percorrer a paisagem aberta de Monforte, marcada por pastagens, searas, pousios e montados dispersos. É neste mosaico agrícola que encontram abrigo algumas das aves mais emblemáticas do interior alentejano, entre elas a abetarda, o sisão, o alcaravão, a águia-caçadeira e o peneireiro-cinzento.

Mais do que uma simples sessão de observação, a iniciativa permitirá compreender a relação estreita entre estas espécies e uma paisagem moldada durante séculos pela agricultura extensiva e pelo pastoreio. A leitura do território faz-se de olhos postos no horizonte, procurando silhuetas em voo, movimentos entre a vegetação rasteira e outros sinais de presença, enquanto se percebe por que razão a conservação das aves estepárias depende também da manutenção dos sistemas agrícolas tradicionais.

Na sua presença em Monforte, o TSS conta com a parceria do município local, do Ministério da Cultura de Espanha, do Interreg Espanha e da Consejería de Cultura da Embaixada de Espanha. Sublinhe-se também o apoio continuado da Direção-Geral das Artes, do BPI-Fundação «la Caixa» e da CCDR Alentejo. Tal como nas edições anteriores, o Festival conta com o Alto Patrocínio da Presidência da República. A programação do TSS prossegue a 10 e 11 de outubro, em Fronteira.

 

Festival Terras sem Sombra