D. Miguel, o pai do Carnaval português e também vítima dele

20:00 - 21/09/2026 OPINIÃO
Paulo Freitas do Amaral, Professor, Historiador e Autor

Há uma ironia na História que dificilmente poderia ter sido inventada por um romancista. D. Miguel, o rei associado à tradição, ao absolutismo, às touradas, às cavalgadas e a uma determinada maneira aristocrática de viver a festa, foi também uma das figuras que mais contribuiu para o florescimento do Carnaval lisboeta oitocentista. Mas, poucos anos depois, o mesmo Carnaval que ajudara a promover haveria de transformar-se numa arma de caricatura contra o mundo político e social que ele próprio representava. D. Miguel seria, assim, simultaneamente um dos pais do moderno Carnaval português e uma das suas primeiras grandes vítimas políticas.

Convém começar por desfazer um equívoco. O Carnaval português não nasceu com D. Miguel. O Entrudo era muito mais antigo e atravessara séculos de proibições, tolerâncias e transformações, conservando aquela característica essencial que sempre lhe permitiu sobreviver: durante alguns dias, a ordem podia ser invertida, os poderosos podiam ser ridicularizados e as convenções sociais podiam ser suspensas. O que acontece no século XIX é diferente. O velho Entrudo popular começa a transformar-se num Carnaval urbano, social, teatral e romântico, no qual os bailes de máscaras, as fantasias e a presença das elites nos divertimentos públicos assumem uma importância crescente.

É neste contexto que encontramos um marco particularmente significativo: 1823. Nesse ano realizou-se em Lisboa, no Pátio do Patriarca, no Bairro Alto, aquele que é habitualmente identificado como o primeiro baile público de Carnaval da cidade, reunindo máscaras e danças numa forma de divertimento que contrariava uma longa tradição de desconfiança das autoridades perante as mascaradas.

O momento não poderia ser mais significativo. Portugal encontrava-se precisamente a atravessar a grande crise política que conduziria à Vilafrancada e à progressiva afirmação de D. Miguel como principal figura do campo absolutista. O jovem infante era um homem de paixões fortes, profundamente ligado à cultura aristocrática do seu tempo e particularmente atraído por cavalos, caça, touradas, bailes e festas. A imagem do rei austero e distante não corresponde inteiramente à personagem histórica de D. Miguel, que os contemporâneos conheceram também como um homem de corte, de cavalariças, de corridas, de touradas e de divertimentos.

Foi durante o seu reinado, entre 1828 e 1834, que o Carnaval lisboeta atingiu uma das suas fases de maior exuberância. A documentação e a memória posterior associam precisamente os anos miguelistas ao grande desenvolvimento dos festejos, dos bailes e das mascaradas, num ambiente em que a própria família real participava numa cultura festiva profundamente marcada pelos hábitos aristocráticos. O chamado rei marialva não era, portanto, um estranho ao Carnaval. Pelo contrário, fazia parte daquele mundo que encontrava na festa uma extensão da própria vida de corte.

E é aqui que começa a verdadeira história.

Porque o Carnaval tem uma característica que os reis raramente conseguem controlar: ri de todos, incluindo aqueles que o patrocinam.

A vitória liberal alterou profundamente o significado político das festas. A sociedade portuguesa mudou, a linguagem política mudou e também mudou a maneira de olhar para o passado miguelista. As personagens carnavalescas começaram a incorporar tipos sociais, políticos e culturais reconhecíveis pelo público. O Carnaval deixou de ser apenas uma ocasião para esconder o rosto. Passou também a ser uma maneira de mostrar, através da máscara, aquilo que não podia ou não queria ser dito diretamente.

Foi neste ambiente que ganhou enorme importância o Xé-Xé, personagem que se tornaria uma das figuras mais características do Entrudo lisboeta. Com o seu chapéu bicorne, a casaca, o especto caricatural e uma aparência deliberadamente ridícula, o Xexé começou por representar um tipo social, mas adquiriu progressivamente uma dimensão política. Fontes posteriores identificam-no expressamente como uma caricatura da Lisboa miguelista caída em desgraça.

A personagem não era apenas um mascarado. Era uma memória política transformada em boneco.

O Xé-Xé ridicularizava precisamente o universo social que o liberalismo pretendia ultrapassar. O bicorne, a casaca, os modos afetados, a velha figura de autoridade e toda a parafernália do antigo regime podiam ser transportados para a rua e transformados em motivo de gargalhada. A política entrava assim no Carnaval pela porta da caricatura.

E ao lado do Xé-Xé surgiam outras personagens que contribuíam para construir esse universo burlesco, entre elas as figuras femininas de capote e lenço que passaram a integrar a iconografia do Entrudo lisboeta. O próprio imaginário carnavalesco oitocentista construiu uma espécie de teatro de rua onde velhas e novos, aristocratas e populares, liberais e absolutistas podiam ser representados, deformados e ridicularizados.

É particularmente significativo que uma publicação da Hemeroteca Digital de Lisboa, ao recordar já no início do século XX a história do Xé-Xé, lhe atribua uma função que ultrapassava largamente o simples divertimento. A personagem teria passado a exercer uma verdadeira função crítica, ridicularizando tiranias, ministros e figuras do poder, tornando-se durante décadas um dos símbolos do Entrudo lisboeta.

O Carnaval fazia aquilo que a caricatura política fazia nos jornais, mas com uma vantagem: andava pelas ruas.

Um homem podia vestir-se de Xé-Xé, colocar o bicorne, vestir uma casaca ridícula e transformar em espetáculo público a caricatura de todo um regime político. Durante três dias, o antigo poder podia regressar à cidade, mas já não como poder. Regressava como máscara.

E aqui está a grande ironia de D. Miguel.

O homem que ajudara a dar ao Carnaval lisboeta uma dimensão extraordinária de festa, de corte e de espetáculo acabaria transformado numa espécie de personagem carnavalesca indireta. O seu mundo, os seus aliados, os seus símbolos e os seus modos sociais passaram a alimentar a imaginação daqueles que os queriam ridicularizar. O Carnaval, que durante o seu reinado fora também espaço de celebração, tornou-se depois espaço de memória e de vingança simbólica.

A história do Xé-Xé demonstra, aliás, como as festas populares podem sobreviver aos regimes políticos que as acolheram. D. Miguel perdeu o trono, partiu para o exílio e desapareceu da vida política portuguesa. Mas o seu universo continuou a circular pelas ruas de Lisboa, embora transformado em caricatura.

É talvez esta a mais curiosa das vinganças da História: um rei pode perder o poder e continuar a reinar numa máscara.

O caso português revela, por isso, uma relação particularmente interessante entre política e Carnaval. O poder permite a festa, a sociedade apropria-se dela e, finalmente, a festa devolve ao poder uma imagem deformada de si próprio. D. Miguel ajudou a promover o espetáculo carnavalesco numa Lisboa fascinada pelas máscaras, pelos bailes, pelos cavalos e pelas festas aristocráticas. Depois, o liberalismo apropriou-se desse mesmo universo e transformou algumas das suas figuras em instrumentos de crítica à sociedade miguelista.

O Carnaval português não nasceu com D. Miguel. Mas, no século XIX, D. Miguel ajudou a dar-lhe uma nova dimensão. E o Carnaval, como todas as grandes festas populares, pagou-lhe da maneira mais carnavalesca possível: transformando o mundo do rei em caricatura.

D. Miguel foi, assim, simultaneamente um dos pais do Carnaval lisboeta moderno e uma das suas primeiras grandes vítimas políticas.

Porque no Carnaval ninguém permanece rei durante muito tempo.

Nem sequer D. Miguel.