Entre seduções e esperas no quarto andar

17:03 - 26/09/2026 OPINIÃO
Jean Carlos Vieira Santos | Professor Universitário | svcjean@yahoo.com.br

No instante em que o meu mundo silencia, senti vontade de fazer as malas, segurar o passaporte e trancar a porta da minha morada no quarto andar. Nesta noite, os sentidos encontram-se com o desejo de egresso e, seduzido pela visita a destinos de outrora, deixo-me cativar por autores de geografias distantes e tempos imemoriais. Talvez o peso dos compromissos laborais clame por um merecido (e sedutor encanto do) ócio.

Ainda sem bagagem e na inquietude do quarto pavimento, espreito o exterior em direção à área de lazer da vizinha Pousada Recanto, cujo caminho se abre para a Rua Machado de Assis. A piscina termal transborda não apenas de calor, mas de sorrisos partilhados por turistas. Ao divagar, penso que esses viajantes fizeram as suas malas, pois, naquele exato momento, os seus mundos se dissolveram no calor coletivo. Movido pela curiosidade acerca desse destino de várias pessoas, começo a fixar-me na música que acompanha o tempo de lazer dos hóspedes.

Aqui prescindo de qualquer análise musical para prosseguir com divagações guiadas pelo ritmo ditado pelo desejo de deslocamento. Carecemos da garantia de abreviar o tempo que revela a verdadeira identidade, quando estamos prestes a deixar um lugar. Quando as portas se abrem para um novo destino, torna-se imperativo silenciar o apelo da permanência na morada, devido à urgência sedutora e à ansiedade indomável por uma nova travessia.

Por vezes, a viagem delonga-se, assim como o elevador que exige paciência. Em síntese, permaneço no quarto andar, ciente de que habito perenemente o presente e fico suspenso entre páginas, cafés, escutas, músicas e partilhas.

Nesse compasso, inicio, agora, a leitura de «A Bagagem do Viajante», de José Saramago.