Por: Padre Carlos Aquino | effata_37@hotmail.com
“Tornou-se a pedra angular”
Esta frase apresenta uma imagem simples, quase doméstica, que nos inquieta. Pedras, construtores, uma obra em construção. E, no entanto, dentro dela cabe uma pergunta profundamente humana: quem decide o que tem valor? Os construtores sabem escolher. Olham para as pedras, medem-nas, comparam-nas, afastam umas e guardam outras. Uma pedra pode parecer demasiado irregular, pequena, frágil ou deslocada. Pode simplesmente não corresponder ao projeto. E aquilo que não serve para a construção é posto de lado. Também nós construímos assim as nossas sociedades. Desde muito cedo aprendemos a classificar. Há os que contam e os que quase não contam; os que têm voz e os que são convidados a permanecer em silêncio; os que ocupam o centro e os que vivem nas margens.
Fazemo-lo nas instituições, no trabalho, na escola, na política, na família e até nas relações mais íntimas. A antropologia recorda-nos que nenhuma sociedade existe sem mecanismos de inclusão e exclusão. Toda a comunidade cria fronteiras: entre «nós» e «eles», entre o normal e o estranho, entre o desejável e o inconveniente. A pedra rejeitada é, por isso, uma imagem extraordinariamente atual. Pode representar o estrangeiro que chega e não encaixa. O idoso que deixou de ser economicamente produtivo. A pessoa com deficiência que a cidade não sabe acolher. O jovem que não encontra lugar. O pobre que se tornou invisível. Aquele cuja linguagem, aparência, origem ou modo de viver perturba as nossas categorias. Mas pode representar também algo mais incómodo: a parte de nós próprios que recusamos reconhecer. Porque talvez o maior desafio antropológico da frase esteja precisamente aqui. O problema não é apenas perguntar quem foi rejeitado pelos outros. É perguntar que critérios usamos para rejeitar. O que acontece quando confundimos utilidade com dignidade? Quando confundimos diferença com ameaça? Quando avaliamos uma pessoa pela sua capacidade de produzir, consumir, competir ou corresponder às expectativas dominantes? A imagem da pedra angular subverte essa lógica. Aquilo que parecia não servir pode tornar-se aquilo que sustenta. O que estava destinado à periferia pode revelar-se estrutural.
O que foi considerado erro pode obrigar-nos a repensar o próprio edifício. Há aqui uma espécie de ironia antropológica: os construtores podem estar convencidos de que conhecem perfeitamente o valor das pedras e, contudo, podem não compreender a construção que estão a realizar. As sociedades modernas têm instrumentos sofisticados para medir, classificar e prever. Temos estatísticas, algoritmos, diagnósticos, rankings, perfis, indicadores. Sabemos quantificar quase tudo. Mas continua a existir uma pergunta que nenhuma tabela resolve inteiramente: quanto vale uma pessoa? Quando uma cultura começa a responder a essa pergunta apenas em termos de desempenho, corre o risco de transformar seres humanos em peças substituíveis. E uma comunidade que só reconhece quem corresponde ao seu modelo de sucesso acaba, inevitavelmente, por produzir desperdício humano. A pedra angular introduz outra lógica: a do reconhecimento. E reconhecer alguém não significa idealizá-lo. Significa admitir que a dignidade humana não depende inteiramente do lugar que ocupamos no sistema. Significa aceitar que o outro pode trazer consigo uma possibilidade que ainda não conseguimos ver. Talvez seja esta uma das tarefas mais exigentes da antropologia contemporânea: aprender a olhar antes de classificar.