Dr.ª Irina Mendes Martins – Deputada Municipal
Disseram-nos muitas vezes que não íamos dar em nada e olhando para trás, talvez não seja difícil perceber porquê.
Falávamos nas aulas, não estávamos quietos, respondíamos aos professores, fumávamos nos intervalos, saíamos à noite, bebíamos mais do que devíamos e cultivávamos uma relação bastante criativa com regras, horários e autoridade.
Não éramos exactamente o sonho de qualquer conselho pedagógico.
Havia sempre alguém disposto a explicar-nos que “com aquela atitude” não iríamos longe. Nós ouvíamos, mais ou menos e depois continuávamos.
Tínhamos dezasseis, dezassete, dezoito anos e aquela arrogância maravilhosa da juventude com a convicção de que nada de verdadeiramente grave nos poderia acontecer.
Fazíamos coisas que hoje não defenderíamos, algumas eram apenas parvas, outras eram perigosas. Conduzir depois de beber por exemplo não tem qualquer graça quando se olha para trás, e concluo que tivemos, muitas vezes, mais sorte do que juízo.
Mas sentíamo-nos imparáveis! Éramos barulhentos, excessivos, insolentes e bastante convencidos de que os adultos exageravam tudo.
Mesmo quando dormíamos três horas aparecíamos na escola, nos exames, no primeiro emprego. As responsabilidades eram para cumprir. Talvez seja isso que mais reconheço hoje na minha geração, nunca fomos particularmente bons a parecer responsáveis, mas aprendemos bastante cedo a sê-lo quando era preciso.
Também crescemos num mundo em que não havia respostas para tudo no bolso.
Quando não sabíamos uma coisa era preciso procurar em livros, bibliotecas, enciclopédias ou em fotocópias de fotocópias, algumas já próximas da arqueologia documental.
Não havia vídeos de três minutos a explicar matéria difícil, nem resumos automáticos, nem inteligência artificial a resumir um capítulo, a corrigir um texto ou a organizar uma bibliografia. No máximo recorríamos aos apontamentos Europa-América que eram um luxo.
Havia o livro, inteiro, e era suposto lê-lo, e para fazer um trabalho era preciso procurar, ler, seleccionar, perceber e às vezes, até pensar. Fomos talvez uma das últimas gerações para quem estudar significava mesmo estudar.
Mas a certa altura, a mesma geração a quem tinham explicado durante anos que não prestava para grande coisa recebeu uma nova mensagem, afinal, tínhamos de ser a geração mais bem preparada de sempre, mas para isso tínhamos de estudar, formar, tirar um curso superior, pós-graduações, mestrado, aprender línguas, ter experiência, sermos flexíveis e estar sempre disponíveis.
Disseram-nos: estudem e terão futuro. E nós estudámos.
Entrámos em massa no ensino superior; muitos de nós fomos os primeiros das nossas famílias a frequentar uma universidade e licenciámo-nos, fizemos mestrados, especializações, estágios, formações. Acumulámos diplomas com a mesma convicção com que poucos anos antes acumulávamos noites mal dormidas.
Depois chegámos ao tal futuro, entrámos no mercado de trabalho e descobrimos que, entretanto, tinham mudado as regras.
A geração mais qualificada de sempre encontrou salários baixos, estágios intermináveis, contratos precários e uma palavra que haveria de marcar boa parte da nossa vida adulta: CRISE.
Foi um pequeno problema de calendário pois apanhámos com crises económicas, crises financeiras, crises imobiliárias, pandemias, guerras, inflação e várias versões sucessivas do fim do mundo.
Fomos educados para um mundo que começou a desaparecer precisamente quando chegou a nossa vez de entrar nele.
Mas tinham-nos dito sempre que o percurso era simples: estudar, trabalhar, comprar casa, construir carreira, constituir família, ter estabilidade. E quando chegámos ao ponto de partida, a estabilidade já tinha sido retirada do plano. Fizemos o que sabíamos fazer.
Desenrascámo-nos, como pudemos, mudámos de emprego e de cidade, alguns mudaram de país, criámos empresas, fechámos empresas e recomeçámos. Comprámos casas tarde ou não as comprámos de todo, adiámos filhos, planos e certezas. Aprendemos profissões que não existiam quando escolhemos o curso.
Adaptámo-nos à internet, às redes sociais, aos smartphones, ao trabalho remoto, à inteligência artificial e a uma sucessão tecnológica tão rápida que às vezes tenho a sensação de termos vivido várias épocas históricas dentro da mesma vida.
Somos provavelmente uma das últimas gerações que teve uma infância completamente analógica e uma vida adulta profundamente digital.
Agora que a minha geração chega aos quarenta anos, dá-me um certo gozo olhar para os antigos colegas de escola, aqueles que falavam nas aulas, que eram insolentes, que chegavam atrasados, fumavam atrás do pavilhão e ouviam regularmente com condescendência, “assim não vais longe”. E vejo médicos, gestores, advogados, empresários, psicólogos, professores, engenheiros, funcionários públicos, arquitectos, enfermeiros, investigadores, comerciantes, artistas, pais e mães.
Construíram carreiras, famílias, projectos e vidas inteiras, alguns seguiram exactamente o caminho que imaginaram, outros não. A maioria improvisou bastante, e talvez esteja aí o mérito.
Afinal, mais do que uma geração perdida, fomos uma geração sem mapa. Tinham-nos ensinado e prometido que havia um percurso certo dos estudos à reforma, passando pelo emprego, pela casa, pela família e pela carreira.
Quando chegou a nossa vez, esse percurso tinha desaparecido, ficou a direcção, o caminho tivemos de o inventar.
Tenho hoje um certo orgulho na minha geração, embora tenhamos feito disparates suficientes para encher várias reuniões de pais e conselhos pedagógicos. Exemplares nunca fomos, nem acho que sejamos melhores do que quem veio antes ou depois, cada geração recebe os seus problemas e encontra as suas respostas.
O que me orgulha é termos aprendido a transformar aquela irresponsabilidade juvenil numa maneira de resistir às dificuldades da vida adulta e incomoda-me a facilidade com que se confundia irreverência com incapacidade. Fomos muito irreverentes, mas isso não nos impediu de aprender responsabilidade.
Questionar professores ensinou-nos a questionar chefes. Ao desafiar regras, percebemos que nem todas eram sensatas, e as asneiras que fizemos ensinaram-nos que havia consequências.
Errar sem haver um registo digital permanente permitiu-nos amadurecer sem que os nossos dezassete anos ficassem eternamente disponíveis para consulta pública, tivemos esse privilégio.
E tivemos outro, aprendemos que uma pessoa pode não saber exactamente o que está a fazer, e mesmo assim, avançar.
Hoje, quando olho à volta, vejo uma geração que aprendeu a continuar, mesmo sem garantias ou respostas prontas, às vezes sem dinheiro e muitas vezes sem dormir o suficiente. Não fomos perfeitos, nem especialmente exemplares, talvez seja por isso que gosto tanto de nós.
Apesar das previsões, chegámos. Com algumas cicatrizes, algumas dívidas, histórias que não contamos aos nossos filhos e uma quantidade surpreendente de responsabilidade para quem alegadamente, nunca iria dar em nada.
Vinte e cinco anos depois, talvez a resposta mais elegante seja esta: não demos exactamente naquilo que tinham planeado para nós.
Demos noutra coisa qualquer.
E, olhando à volta, não nos saímos nada mal.