Sessão de apresentação de resultados destacou o potencial da cana, da casca de ostra, do barro e da taipa e os desafios à sua entrada no mercado.
O desenvolvimento de novos produtos a partir de materiais endógenos do Algarve esteve no centro da sessão «Matéria Adentro: Novos caminhos para os materiais do território», realizada no dia 22 de outubro, no auditório da CCDR Algarve, em Faro. O encontro reuniu mais de 50 pessoas na sala, apresentou os resultados das residências criativas e promoveu a discussão sobre as condições necessárias para transformar a experimentação em soluções com aplicação na arquitetura, no design e na construção sustentável.
A abertura institucional contou com as intervenções de José Apolinário, Presidente da CCDR Algarve, Lurdes Serpa Carvalho, Diretora da Unidade de Planeamento e Desenvolvimento Regional da CCDR Algarve, responsável pelo desenvolvimento do projeto, Vítor Neto, presidente do NERA, e João Costa, em representação do Município de Faro. O enquadramento do programa e das residências criativas coube a Graça Palma, da Proactivetur, que apresentou os objetivos, a metodologia de trabalho e as dificuldades e condicionantes encontradas no desenvolvimento das propostas.
Os trabalhos resultaram de um processo de cocriação entre unidades produtivas, artesãos, designers, arquitetos e investigadores, que exploraram novas possibilidades de utilização da cana, da casca de ostra, do barro e da taipa. A apresentação permitiu conhecer os produtos desenvolvidos, os processos de pesquisa e experimentação e as dificuldades encontradas na sua execução.
Os resultados da residência dedicada à casca de ostra foram apresentados pela Graça Palma, da Proactivetur, que explorou a incorporação deste material em diferentes misturas, incluindo com taipa, cal e barro, procurando novas possibilidades de valorização deste recurso. Na área da cana, Susana Carmo e Cláudia Martins apresentaram três propostas de produto com foco no isolamento térmico, desenvolvidas através de etapas de pesquisa, experimentação, avaliação e aperfeiçoamento.
O trabalho com os Telheiros de Santa Catarina, apresentado por Fraukje Eline Vooijs e Alexandra Gonçalves, destacou o conhecimento associado à produção artesanal de barro e a sua aplicação em novas propostas. Entre os resultados apresentados estiveram ladrilhos vidrados e não vidrados, elementos de telha e tijolo que exploram soluções modulares para a separação de espaços e azulejos inspirados na esteva e na serra.
Na taipa, Pedro Pereira apresentou o banco modular instalado no Jardim da Alameda, em Faro, uma experiência que transporta esta técnica tradicional de construção para o mobiliário urbano e permite explorar novas utilizações da terra crua no espaço público.
A passagem dos produtos para o mercado esteve em destaque na mesa-redonda «Caminhos Práticos para os Materiais do Território», com a participação de Ana Lúcia Cruz, do CRIA da Universidade do Algarve, Paula Cayolla Trindade, da ESPAP, Teresa Correia, vice-presidente da CCDR Algarve para a área do Ambiente, e Fraukje Eline Vooijs, da Perto Arquitetura. A discussão incidiu sobre os desafios associados à certificação e à comercialização, à integração de materiais endógenos na contratação pública e à estruturação de cadeias de valor que permitam transformar resíduos em matérias-primas.
Na reflexão sobre a viabilidade das propostas, Ana Lúcia Cruz reconheceu o potencial dos projetos, salientando a necessidade de concretizar etapas adicionais para a sua entrada no mercado. Fraukje Eline Vooijs destacou o potencial das quatro áreas de trabalho, com particular referência às soluções desenvolvidas com os telheiros, pelo interesse já manifestado por potenciais clientes.
O balanço da sessão evidenciou que os resultados apresentados constituem uma base para continuar o desenvolvimento destes produtos, embora subsistam desafios até à sua adoção mais alargada. A continuidade da colaboração entre produtores, profissionais criativos, investigadores e entidades de apoio será importante para consolidar as soluções e aproximá-las das necessidades do mercado.
A apresentação final reforçou as oportunidades que os recursos do território oferecem para a criação de novos produtos, associando a valorização dos saberes tradicionais à inovação e à utilização responsável dos materiais.
Sobre o projeto “Matéria Adentro”
O «Programa de Desenvolvimento de Novos Produtos baseados em Materiais Endógenos Inspirados na Dieta Mediterrânica» desenvolve-se no âmbito do INOVA ALGARVE 3.0 — Promoção da Qualificação e Inovação na Região do Algarve, dinamizado pela Proactivetur e cofinanciado pelo Programa Regional Algarve 2030.
Tem como objetivo estimular a criação de novos produtos a partir dos materiais endógenos do Algarve, promovendo a sua valorização económica e cultural. Inspirado nos valores da Dieta Mediterrânica, associa os saberes e as técnicas tradicionais à inovação, procurando contribuir para a diversificação da economia regional e para a continuidade das atividades artesanais.
Assente no mapeamento de recursos e agentes locais, foram promovidas residências criativas com artesãos, empresas, designers, arquitetos e investigadores. Através da cocriação e da experimentação com a cana, a casca de ostra, o barro e a taipa, foram desenvolvidos produtos com potencial de aplicação no design, na arquitetura e na construção sustentável, integrando princípios de economia circular e de utilização responsável dos recursos.
CCDR Algarve