Foto: Samuel Mendonça
Misericórdias do Algarve querem reforçar cooperação para responder aos novos desafios sociais

17:38 - 29/10/2026 ALGARVE
Reunião do Conselho Regional de Misericórdias do Distrito de Faro decorreu no Museu de Portimão e contou com a presença do bispo do Algarve, do presidente da União das Misericórdias Portuguesas e de responsáveis da Segurança Social e do município.

O reforço da cooperação entre as Misericórdias, a Diocese do Algarve, a Segurança Social e os municípios, perante as crescentes exigências sociais e os desafios à sustentabilidade das instituições, esteve em destaque na reunião do Conselho Regional de Misericórdias do Distrito de Faro, realizada no passado dia 26 de outubro, no Museu de Portimão.

O encontro reuniu representantes das Misericórdias algarvias e contou com a participação de D. Vitorino Soares, bispo do Algarve, Manuel de Lemos, presidente da União das Misericórdias Portuguesas (UMP) e Armindo Vicente, presidente do Secretariado Regional da UMP, Ofélia Ramos, diretora do Centro Distrital de Faro da Segurança Social, e José Cardoso, vereador da Câmara Municipal de Portimão com responsabilidades na área da ação social.

Na sessão, os responsáveis destacaram a importância de aprofundar o trabalho em rede para responder às necessidades das populações, num contexto marcado pelo envelhecimento, pelo isolamento social, pelas dificuldades económicas das famílias e pela necessidade de assegurar recursos humanos e financeiros que garantam a continuidade e a qualidade das respostas sociais.

Bispo do Algarve manifesta disponibilidade para colaborar

D. Vitorino Soares, que participou no encontro no âmbito do seu recente início de ministério episcopal na Diocese do Algarve, sublinhou a importância de conhecer a realidade local antes de definir respostas e comprometeu-se a colaborar com as Misericórdias. “Estou a chegar e o sensato para quem chega é escutar e ouvir, e é ver, com certeza, mas é sobretudo esta capacidade de parar diante de uma realidade nova que nos chega às mãos”, afirmou o bispo do Algarve.

O responsável diocesano considerou que a missão das Misericórdias continuará a ser necessária enquanto existirem pessoas e necessidades humanas a que dar resposta. “As Misericórdias continuarão a existir enquanto houver humanidade”, declarou, sublinhando que as instituições terão de acompanhar as transformações da sociedade e encontrar respostas para os novos problemas.

D. Vitorino Soares destacou ainda que a colaboração entre as Misericórdias e a Diocese deverá assentar na complementaridade e não na concorrência. “Não é concorrência, é colaboração, é sintonia, mas é também complementaridade”, afirmou, acrescentando que as particularidades de cada instituição devem ser colocadas ao serviço de todos.

Para o bispo do Algarve, conhecer a realidade das pessoas é essencial para que a ação social corresponda às suas necessidades efetivas. “A melhor forma é parar para conhecer a realidade porque muitas vezes estamos envolvidos em ritmos e rotinas, que às vezes nos desligam daquilo que é a realidade”, observou.

O responsável católico manifestou, por isso, a sua disponibilidade pessoal para se encontrar com as Misericórdias e assegurou que a diocese continuará a contar com a colaboração destas instituições.

Segurança Social alerta para desafios à sustentabilidade

A diretora do Centro Distrital de Faro da Segurança Social, Ofélia Ramos, reconheceu o papel das Misericórdias no sistema de proteção social, considerando que a sua proximidade às comunidades constitui um valor fundamental para conhecer as necessidades das pessoas e das famílias. “O setor social e solidário é muito mais do que um parceiro do Estado. Eu considero que é um dos pilares fundamentais do Estado social”, afirmou.

A responsável identificou vários desafios que afetam particularmente o Algarve, entre os quais o envelhecimento da população, o aumento da longevidade, as situações de dependência, o isolamento social e a crescente complexidade das necessidades das famílias.

A estes fatores acrescentou as assimetrias entre o litoral e o interior, as dificuldades de acesso à habitação, o elevado custo de vida e os obstáculos ao recrutamento e à fixação de profissionais qualificados. Referiu, em particular, a falta de educadores de infância, que classificou como uma situação preocupante na região.

Segundo Ofélia Ramos, as instituições enfrentam, assim, a necessidade de responder a exigências cada vez mais complexas, garantindo simultaneamente os meios humanos e financeiros necessários à prestação de serviços de qualidade. “A sustentabilidade das Misericórdias não é apenas um problema das Misericórdias, é uma questão de interesse público”, defendeu, salientando que a continuidade das respostas sociais depende da capacidade de assegurar a sustentabilidade das instituições.

A diretora do Centro Distrital de Faro valorizou também o trabalho desenvolvido entre o Governo e as entidades representativas do setor social para conhecer os custos efetivos das respostas sociais, considerando que este processo poderá contribuir para uma cooperação mais informada e transparente.

Entre as respostas a desenvolver, destacou a necessidade de reforçar a articulação entre a Segurança Social, a Saúde e as instituições sociais, bem como de promover a autonomia das pessoas, combater o isolamento e favorecer o envelhecimento com dignidade junto das famílias e comunidades.

Neste contexto, apontou o projeto-piloto SAD+Saúde como exemplo de uma resposta que articula serviços de apoio social com cuidados de saúde.

Ofélia Ramos reafirmou, por fim, a disponibilidade do Centro Distrital de Faro para aprofundar a relação com as Misericórdias, defendendo que a cooperação deve traduzir-se em ações concretas e em respostas efetivas às necessidades das pessoas.

 

Município de Portimão destaca papel das Misericórdias

Também o vereador da Câmara Municipal de Portimão, José Cardoso, destacou a importância destas instituições para a coesão social e para a capacidade de intervenção das autarquias junto das populações.

O responsável recordou a presença no município das Misericórdias de Portimão, Alvor e Mexilhoeira Grande, considerando-as instituições históricas, profundamente enraizadas na comunidade e com uma oferta diversificada de respostas sociais. “As Misericórdias são, de facto, um pilar fundamental desta rede social”, afirmou, defendendo que os municípios não conseguem assegurar uma intervenção social abrangente sem a colaboração das instituições particulares de solidariedade social.

José Cardoso garantiu que a autarquia pretende aprofundar o apoio e a cooperação com estas entidades, nomeadamente na identificação de necessidades, na criação de novas respostas e na articulação com os organismos públicos.

O vereador salientou ainda que os desafios sociais abrangem hoje diferentes segmentos da população e faixas etárias, exigindo respostas articuladas entre as instituições, os municípios e o Estado.

 

União das Misericórdias reafirma compromisso com a Igreja

O presidente da União das Misericórdias Portuguesas, Manuel de Lemos, destacou a identidade católica das Misericórdias e a sua disponibilidade para colaborar com a Diocese do Algarve. “As Misericórdias são instituições que mergulham fundo as suas raízes nos princípios e nos valores da Igreja Católica”, afirmou, recordando que a UMP procura aprofundar a eclesialidade destas instituições, respeitando a sua autonomia e identidade.

O responsável considerou igualmente importante a cooperação num mundo em permanente transformação, marcado por dificuldades que se refletem tanto na realidade internacional como no contexto local.

Manuel de Lemos chamou a atenção para a evolução do conceito de pobreza, observando que existem hoje pessoas com emprego que continuam a enfrentar dificuldades e necessidades que exigem respostas sociais adequadas.

O presidente da UMP reafirmou, por isso, a disponibilidade das Misericórdias para construir um país mais coeso e ajudar quem mais precisa, independentemente da origem ou da causa da sua situação de vulnerabilidade.

Por sua vez, Armindo Vicente, presidente do Secretariado Regional da União das Misericórdias Portuguesas, destacou a capacidade de cooperação das instituições algarvias com a Segurança Social e os municípios.

O responsável salientou o contributo das autarquias para o trabalho das Misericórdias, defendendo que a complementaridade entre os diferentes agentes permite chegar mais longe na resposta às necessidades das comunidades.

Referiu ainda as dificuldades económicas que afetam as instituições, nomeadamente a inflação e os custos dos combustíveis, sublinhando a importância de manter a união e o diálogo para encontrar soluções.

Armindo Vicente valorizou também o contributo económico e social das Misericórdias para as comunidades, defendendo a continuidade de uma atitude de serviço às pessoas através das instituições sociais.

A reunião do Conselho Regional incluiu ainda uma apresentação do Centro de Competências para a Economia Social, dirigida às instituições presentes, com o objetivo de dar a conhecer os seus serviços e as possibilidades de apoio à formação e à qualificação dos profissionais do setor.

 

Folha do Domingo