No final de 2025, a população residente no município de Loulé ascendia a 94.447 pessoas, sendo o mais extenso e populoso município algarvio, com 763,67 km² de área, subdividido em 11 freguesias, onde convivem três realidades urbanas distintas — Loulé, Almancil e Quarteira.
Quarteira, com 37,78 km² de área e 24.421 habitantes segundo os Censos 2021, tem mais relevância populacional do que muitos concelhos algarvios inteiros.
Esta dispersão populacional, associada à forte sazonalidade turística, torna a mobilidade um desafio estrutural, não apenas conjuntural.
O Algarve fechou 2024 com 5,2 milhões de hóspedes nos estabelecimentos de alojamento turístico, ultrapassando pela primeira vez a marca dos 5,1 milhões registados em 2023, e 20,7 milhões de dormidas, recordes que consolidam a região como principal destino turístico do país.
Este sucesso tem um custo para o concelho de Loulé: picos de tráfego automóvel no litoral e congestionamento entre Quarteira, Vilamoura e Almancil, numa rede viária pensada para outra escala de procura.
Ligar estas cidades por transporte público de qualidade e por ciclovias não é um luxo ambiental — é uma infraestrutura crítica para a economia louletana.
O concelho conta atualmente com cerca de 60 quilómetros de ciclovias, mas apenas 1% da população privilegia a mobilidade ciclável, segundo dados municipais recentes. A meta é subir de 1% para 10% até 2030, através de projetos como o "Vai de Vela", o Loulé Bike Sharing que será implementado em Almancil, Vale do Lobo, Quinta do Lago, Loulé, Quarteira e Vilamoura, com 490 bicicletas 100% elétricas, 86 estações e 1032 docas.
Estes números são importantes porque a questão não é apenas ambiental — é também social e económica. Milhares de trabalhadores do turismo, comércio e agricultura deslocam-se diariamente entre estas cidades, muitas vezes sem alternativa viável ao automóvel. Uma rede intermodal robusta — comboio, autocarro, bicicleta e percursos pedonais articulados — reduz custos de mobilidade para quem vive e trabalha no concelho, alivia a pressão rodoviária na época alta e melhora a experiência turística, cada vez mais sensível a critérios de sustentabilidade.
O gasóleo por exemplo, que é o combustível dominante no consumo empresarial em Portugal subiu cerca de 29% desde o início do ano até à presente data.
Andar de carro pesa assim cada vez mais nas nossas carteiras.
A nível regional, a Comunidade Intermunicipal do Algarve (AMAL) está a desenvolver o Plano de Mobilidade Urbana Sustentável do Algarve 2.0, que representa a evolução dos Planos de Ação da Mobilidade Urbana Sustentável (PAMUS 2020), procurando integrar o planeamento dos transportes com as restantes estratégias de desenvolvimento regional, contribuindo para uma região mais resiliente e de baixo carbono — sinal de que o problema é reconhecido há muito, embora a solução dependa ainda de execução no terreno de projetos que para o Algarve são essenciais.
Loulé tem escala, procura, visibilidade, e não menos relevante para esta discussão – centenas de milhões de euros disponíveis nos seus orçamentos municipais - para ser caso de estudo nacional em matéria de mobilidade sustentável.
Falta transformar planos e projetos-piloto em rede efetivamente utilizada no quotidiano, por residentes e visitantes. Ou seja, falta-nos o que parece faltar-nos muito em muitas áreas: vontade de passar da palavra aos atos. Capacidade para executar no seu devido tempo os investimentos relevantes para o concelho (e não executar anos depois, quando o investimento já não tem o impacto desejado ou a solução já está ultrapassada).
Precisamos de políticos corajosos e cumpridores da sua palavra, e de uma população atenta e mais exigente com os resultados de quem nos governa.
Temos tudo para ser melhor.
Vamos a isso?
Sobre o Autor: Cláudio Lima é Presidente da Direção Regional da Ordem dos Economistas do Algarve. Conta com uma vasta experiência nos setores público e privado. A sua participação cívica inclui o envolvimento em diversas associações, com destaque para a Confraria Gastronómica da Serra do Caldeirão, onde é Presidente do Conselho Fiscal, da Associação de Futebol do Algarve onde é vogal do Conselho Fiscal, e conta com perto de 20 anos em funções de natureza político-partidária ao serviço do PSD, tendo sido Presidente da Concelhia de Loulé entre 2022 e 2026.


