As tardes de oração, promovidas pelo Cabido da catedral de Faro ao longo dos domingos da presente Quaresma, associaram-se ontem à tradicional procissão do Senhor Jesus dos Passos levada a cabo pela paróquia matriz da cidade.

Na Eucaristia que a precedeu na igreja de São Pedro, o cónego Carlos César Chantre, que presidiu à celebração, começou por destacar que a presença de uma representação dos restantes membros do Cabido catedralício permitiu “recuperar uma tradição”: a de os cónegos da Sé de Faro “circularem pelas paróquias da cidade”.

Um deles, o cónego Carlos de Aquino, que proferiu a vigorosa homilia, desafiou a multidão presente a transformar a sua vida, correspondendo ao amor de Cristo. “Queremos purificar-nos do mal, do que nos suja, iluminando a nossa vida e o nosso coração a partir da presença de Jesus. Também nos queremos aproximar dele, escutando a sua palavra, transformando a nossa vida pela luz dessa palavra.

E o que é que essa palavra hoje nos diz de extraordinário a nós que estamos aqui a celebrar a nossa fé? Diz-nos que Deus nos ama muito”, referiu, explicando não se tratar de “um Deus que castiga”, “uma energia” ou “uma força”. “O nosso Deus é uma pessoa, é uma comunhão de pessoas. Fala-nos e não amua quando erramos, não castiga quando pecamos, não é o Deus das sanções”, clarificou.

Referindo que “Deus amou tanto o mundo” que lhe deu o seu filho e que nele tornou os seres humanos “seus filhos muito amados”, o sacerdote destacou que Deus enviou Jesus “não para lamentar o mundo, a vida das pessoas, condenar ou para castigar”, mas para “dar a vida”. “Deus visitou o mundo por causa do amor. E nós estamos também aqui reunidos esta tarde por causa do amor. Também queremos amar o Senhor como ele nos ama”, referiu.

Procurando interpelar os presentes, questionou: “Como é que correspondemos a este amor? Que alegria grande procuro e vivo? Por que caminho construo a minha vida? Que amor é que me transforma? Acreditamos neste amor que cura, que liberta, que dá vida?”, interrogou, lamentando que, por vezes, se passe o tempo “não a testemunhar este amor, a dizê-lo nas palavras e nos gestos, mas a negá-lo”. “E quando é que negamos este amor? Quando passamos a vida a lamentar”, especificou, questionando o que é que cada um faz “para transformar o mundo” e se apenas veste o “fato de cristão” quando vem à missa ou quando vem rezar.

“Se Deus te ama, ama também com o coração de Deus. Se Deus te olha com esse amor, vê os outros também com esse olhar de Deus. Se Deus te toca e te levanta com essas mãos cheias de ternura e misericórdia tem tu também essas mãos boas que não magoam, que não destroem”, pediu, questionando “quem é que fala do céu, de Deus, do amor de Cristo”. “Somos peregrinos e caminheiros com o Senhor dos Passos, mas queremos que todos os nossos passos nos conduzam ao céu e já neste mundo sejam proclamação de eternidade, de amor bom, que leve luz e não trevas à vida de todos, que leve paz, justiça e verdade”, concluiu na celebração concelebrada também pelo cónego Rui Barros Guerreiro, pelo frei Bruno Peixoto e pelo padre Samuel Camacho.

Depois da Missa participada também pelo presidente da Câmara de Faro, Rogério Bacalhau, seguiu-se por algumas das ruas da baixa da cidade a procissão, ilustrada por alguns quadros da paixão de Jesus representados por jovens das paróquias do Montenegro e São Pedro, que têm o cónego César Chantre como pároco. O cortejo, participado por também pelo seminaristas do Seminário de Faro, pelas Ordens Terceiras Nossa Senhora do Monte do Carmo e Franciscana Secular, pelo Moto Clube de Faro, pelo Agrupamento 98 – Faro do Corpo Nacional de Escutas, entre outras entidades e instituições, contou com o acompanhamento musical da Associação Filarmónica de Faro.

No regresso à matriz de Faro, o frei Bruno Peixoto, que presidiu à procissão, alertou para o significado de revisitar Jesus “neste seu caminho derradeiro para a cruz”. “Só quem entende verdadeiramente a ressurreição, só quem crê verdadeiramente em Cristo vivo, atuante e presente na nossa história, pode fazer com Cristo este caminho até a cruz, até ao Calvário, mas já com os olhos e o coração postos na manhã daquele terceiro dia, no domingo da ressurreição”, realçou, acrescentando: “A nossa fé e a nossa esperança não ficam naquela terrível Sexta-feira Santa de escuridão, de sofrimento e de dor. A nossa fé estende-se ao luminoso domingo da Páscoa, ao domingo da ressurreição do Senhor”.

Tal como o cónego Carlos de Aquino, também o sacerdote franciscano aludiu à necessidade de corresponder ao amor de Jesus. “Queremos aqui comprometer a nossa vida e sermos verdadeiros cristãos, comprometidos com a nossa fé, obedientes à palavra de Jesus e procurar-nos configurar com Jesus nos nossos sentimentos, pensamentos, ações”, afirmou.

Lembrando que aqueles “passos do Senhor” são também os da humanidade, o frei Bruno Peixoto evocou as “todas as cruzes dos homens de hoje”. “O nosso pensamento volta-se hoje muito particularmente para aquelas mães que sofrem no mundo, tanto no sentido físico como psicológico ou moral”, afirmou, lembrando ainda “a solidão, os insucessos, as deceções da vida pessoal, as dificuldades de emprego neste mundo tão competitivo, as separações e os lutos nas famílias e a violência da guerra”. “A nossa vida só é possível transformar-se se nós formos os primeiros a mudar. O mundo só muda e só melhora se cada um for capaz de fazer a sua parte”, concluiu.

 

Fotos © Samuel Mendonça/Folha do Domingo