À frente da Junta de Freguesia da Tôr, André Pedro tem assumido o desafio de responder às necessidades da população e, ao mesmo tempo, preparar a Tôr para os desafios do futuro.
Com uma freguesia marcada pela sua identidade, pelas tradições e por uma forte ligação à comunidade, são vários os projetos e preocupações que estão na agenda do executivo, desde a melhoria das condições de vida da população à valorização do território, passando pelo apoio às associações, pela preservação do património e pela dinamização da freguesia.
Nesta entrevista, André Pedro fala sobre o presente e o futuro da Tôr, os principais projetos da Junta, as dificuldades encontradas e as prioridades para os próximos tempos. Uma conversa que aborda também a relação com a população e a importância de continuar a construir uma freguesia mais dinâmica, participativa e preparada para o futuro.
A Voz do Algarve: - André Pedro é o mais jovem presidente de Junta de Freguesia deste mandato no concelho de Loulé. O que significa para si assumir esta responsabilidade tão jovem?
André Pedro: - Assumir a presidência da Junta de Freguesia da Tôr com esta idade é, acima de tudo, um enorme orgulho e um voto de confiança que os cidadãos desta freguesia depositaram em mim e na minha equipa. Sei que a juventude traz visibilidade, mas traz também uma responsabilidade redobrada, a de provar que a idade não dita a competência, a dedicação ou o amor à nossa terra. Significa trabalhar o dobro para mostrar que as novas gerações estão prontas para liderar, mantendo sempre o respeito absoluto pela sabedoria dos mais velhos.
V.A: - Que balanço faz destes primeiros nove meses à frente da Junta de Freguesia da Tôr?
A.P: - O balanço é extremamente positivo, de aprendizagem contínua e de muito trabalho no terreno. Foram nove meses intensos onde nos focámos em arrumar a casa, perceber as dinâmicas internas e avançar com projetos cruciais. Conseguimos manter uma junta aberta, disponível e muito próxima da comunidade. Ouvir as críticas, receber os elogios e sentir o pulso da freguesia diariamente dá-nos a certeza de que estamos no caminho certo.
V.A: - Quais foram os maiores desafios que encontrou ao assumir o cargo?
A.P: - O maior desafio inicial foi, sem dúvida, a adaptação à máquina administrativa e burocrática, que muitas vezes não acompanha a velocidade com que queremos resolver os problemas do dia a dia das pessoas. Gerir expectativas e conciliar os recursos financeiros e humanos da Junta com a quantidade de trabalhos diários foi outro teste exigente, mas que temos vindo a superar com espírito de equipa.
V.A: - Já houve algum momento particularmente marcante que o tenha emocionado ou feito sentir que tomou a decisão certa ao candidatar-se?
A.P: - Sim, acontece quase todas as semanas nas pequenas coisas. Há pouco tempo, uma senhora idosa da nossa freguesia agarrou-me na mão, agradeceu-me por termos resolvido um problema que na nossa ótica foi simples de resolver, mas muito relevante e impactante na vida desta senhora que me disse: "Fico descansada porque sei que o nosso presidente olha por nós". Esse carinho genuíno e a sensação de que estamos a melhorar diretamente a vida de alguém é o que me emociona e me dá a certeza absoluta de que valeu a pena avançar
V.A: - Que momentos ou conquistas destaca neste período de mandato?
A.P: - A grande conquista é a nossa proximidade diária, mas do ponto de vista estrutural, as obras do Centro de Saúde, a caixa de ATM e recente abertura do novo Espaço de Cidadão na Tôr são os grandes marcos deste período. Conseguir colocar estas valências ao serviço da população, evitando deslocações desnecessárias é uma vitória tremenda para a coesão do nosso território
V.A: - Recentemente foram inaugurados a reabilitação do Centro de Saúde e o novo Espaço Cidadão. O que representam estes investimentos para si e para a população da Tôr?
A.P: - Representam dignidade, descentralização e fixação de pessoas. Para mim, ver o Espaço Cidadão a disponibilizar serviços públicos — desde renovar o cartão de cidadão, a tratar de assuntos da Segurança Social ou Finanças — é o verdadeiro significado de serviço público. Para a população, especialmente para os nossos idosos que enfrentam dificuldades de mobilidade ou infoexclusão, significa ter o Estado à porta de casa, com o apoio personalizado que merecem
V.L: - Que outras obras ou projetos espera concretizar até ao final deste mandato autárquico?
A.P: - Queremos continuar a investir fortemente na beneficiação de serviços e infraestruturas, como uma pequena mercearia, estradas e segurança rodoviária. Além disso, pretendemos valorizar o nosso património cultural e natural, apostar na dinamização de atividades para a população sénior e criar melhores condições logísticas para as nossas associações locais
V.A: - Quais são atualmente as principais necessidades da freguesia da Tôr?
A.P: - A Tôr, como grande parte do interior algarvio, luta contra o envelhecimento demográfico e a necessidade de fixar novas famílias. Precisamos de continuar a melhorar as acessibilidades, garantir que os serviços funcionam na perfeição e criar incentivos ou condições de habitação que permitam aos jovens olhar para a Tôr não apenas como um sítio bonito para visitar, mas como o local ideal para viver e criar raízes.
V.A: - O que gostaria de ver concretizado na freguesia ainda neste mandato?
A.P: - Tanta Coisa… Gostaria de chegar ao fim deste mandato com uma freguesia mais dinâmica, mais segura, com a rede viária significativamente melhorada e com o sentimento geral de que a Tôr é uma terra viva, onde dá gosto morar. O meu grande objetivo é que nenhum habitante se sinta esquecido, independentemente de morar no centro da aldeia ou no monte mais isolado. Ter um Multibanco, uma Mercearia, acesso à saúde com condições, um parque infantil já é uma boa base para darmos dinâmica à freguesia e estará mais capacitada para novas oportunidades.
V.A: - Como e quando surgiu o interesse pela política e pelo serviço público?
A.P: - O interesse nunca surgiu por "ambição política", mas sim pelo associativismo e pela vontade de ajudar. Sempre fui ativo na comunidade, envolvido nas dinâmicas locais e nas conversas sobre o futuro da nossa terra. Com o tempo, percebi que o "poder local", é a ferramenta mais eficaz que temos para transformar a realidade e fazer a diferença na vida das pessoas que nos rodeiam
V.A: - O que o motivou a candidatar-se à presidência da Junta?
A.P: - O amor pela Tôr, o Orgulho em ser Torense e recusar-me piamente a aceitar que a Tôr fosse uma terra perdida no barrocal algarvio com a convicção de que a nossa freguesia tem um potencial enorme que precisava de ser despertado com novas ideias, energia renovada e um projeto de futuro. Olhei à minha volta e senti que não podia ficar apenas a assistir ou a apontar o dedo; se queria ver a minha terra prosperar, tinha de dar o passo em frente e colocar-me ao serviço de todos
V.A: - Sempre imaginou vir a desempenhar funções políticas ou o convite surgiu de forma inesperada?
A.P: - Sinceramente, não era algo que estivesse nos meus planos de vida, no entanto desde criança que sempre senti aquele “chamamento” em dar a cara pelas pessoas, pela minha freguesia e dar uma dignidade a estas gentes tão especiais para mim, os Torenses. O desafio e o convite surgiram num momento em que se procurava um projeto forte, unido e capaz de dar estabilidade e futuro à Tôr. Pensei muito, mas quando o coração bate forte pela nossa terra, a resposta só podia ser "sim". Aceitei o desafio com total sentido de missão
V.A: - Que valores procura transmitir no exercício do cargo?
A.P: - Humildade, transparência, integridade e proximidade. Um presidente de Junta não é mais do que ninguém; é um funcionário do povo. Procuro governar para todos, sem distinções políticas ou pessoais, mantendo sempre a palavra dada e estando disponível para ouvir, mesmo quando as opiniões são contrárias às minhas, estou aqui genuinamente pelo povo da Tôr e irei honrar esse compromisso até o meu último dia de mandato.
V.A: - Quem são as suas principais referências, tanto na política como na vida pessoal?
A.P: - Na vida pessoal, as minhas grandes referências são as pessoas do meu núcleo pessoal, que me ensinaram e ensinam diariamente o valor da vida, da verdade, da honestidade, da resiliência, do respeito pelos outros e da humildade. Na política, inspiro-me em pessoas e em modelos com os quais me identifico e me transmitem boas energias, e sem dúvidas, uma das minhas grandes referências políticas é o nosso atual presidente da Câmara Municipal de Loulé, Telmo Pinto, um líder nato. Desde o seu trabalho em Quarteira como o que está a desempenhar atualmente no concelho é inspirador. Um homem integro, honesto, descomplexado, focado e sempre presando pelo rigor e pela dignidade do nosso concelho. E, só pessoas verdadeiras deverão estar à frente dos destinos das populações que representam. É deveras inspirador e um modelo a seguir.
V.A: - Como é que a família e os amigos reagiram quando decidiu avançar para este desafio?
A.P: - Houve uma mistura de surpresa, orgulho e também alguma preocupação natural, porque todos sabemos que a vida política exige muitos sacrifícios pessoais. No entanto, o apoio foi e continua a ser total, entraram nesta onda. Sabem o quanto gosto e me importo com a Tôr.
V.A: - O que mudou na sua vida desde que assumiu a presidência da Junta?
A.P: - Mudou quase tudo na gestão do tempo! O telefone raramente pára e os fins de semana passaram a ser dedicados a eventos, às reuniões e à preparação de projetos. Deixei de ter horários fixos, tanta disponibilidade para família e amigos que estão sempre a cobrar. Mas, em contrapartida, ganhei uma riqueza humana extraordinária e um conhecimento profundo do concelho e das pessoas que me enche a alma.
V.A: - É difícil conciliar a vida pessoal, profissional e política?
A.P: - É um verdadeiro jogo de malabarismo. Exige muita disciplina, organização e, acima de tudo, a compreensão daqueles que me são mais próximos. Há dias longos e cansativos, mas quando fazemos o que gostamos e vemos os resultados a aparecer no terreno, o cansaço passa para segundo plano.
V.A: - Considera que a sua juventude é uma vantagem na forma de liderar a freguesia?
A.P: - Acredito que sim. A juventude traz uma perspetiva fresca, menos formatada pelos velhos hábitos da política tradicional. Traz energia para estar no terreno a qualquer hora, abertura para a inovação digital e uma enorme vontade de fazer acontecer sem medo dos obstáculos. No entanto, a vantagem só é real se soubermos cruzar essa energia jovem com a experiência e o conhecimento dos colaboradores e dos residentes mais antigos da freguesia.
V.A: - Sente que os jovens estão suficientemente envolvidos na vida cívica e política?
A.P: - Infelizmente, acho que ainda há um grande desapego e um certo ceticismo por parte dos jovens em relação à política. No entanto, eles envolvem-se muito através do desporto, da cultura e do associativismo. O nosso papel como decisores é traduzir a política numa linguagem simples e direta, mostrando-lhes que as decisões tomadas na Junta ou na Câmara afetam diretamente o futuro deles.
V.A: - Que mensagem gostaria de deixar aos jovens que gostariam de participar mais ativamente na sua comunidade?
A.P: - Diria apenas isto: Não deixem que os outros decidam por vocês. Se acham que algo está mal ou que pode ser melhorado, metam-se ao barulho. Participem nas assembleias de freguesia, deem ideias, entrem nas associações da vossa terra. A vossa irreverência e o vosso inconformismo são o combustível de que o nosso concelho precisa para não estagnar.
V.A: - O que pode a Junta fazer para atrair e fixar mais jovens na freguesia?
A.P: - A Junta tem de ser um agente facilitador. Podemos criar e apoiar eventos desportivos e culturais apelativos, garantir acesso a internet de alta qualidade nos espaços públicos, criar parcerias com o município para programas de habitação jovem e, acima de tudo, garantir que a Tôr tem serviços modernos (como o ATM, Espaço de Cidadão, etc…) que evitam que as pessoas percam tempo de vida em burocracias
V.A: - Como imagina a Tôr daqui a alguns anos?
A.P: - Imagino a Tôr como um exemplo de equilíbrio perfeito no Algarve: uma freguesia que soube preservar a sua identidade rural, a sua gastronomia, a sua pacatez e o seu património natural, mas que ao mesmo tempo se modernizou, atraiu novas famílias e se tornou num exemplo no interior do nosso concelho.
V.A: - A Feira da Tôr é um dos momentos mais importantes do ano para a freguesia. Como decorrem os preparativos para a edição deste ano?
A.P: - Os preparativos estão a decorrer a todo o gás e com um espírito de equipa fantástico! Toda a equipa da Junta, os funcionários e voluntários, estão no terreno a preparar o recinto. Estamos inclusivamente a cuidar de todos os pormenores práticos para que as pessoas se sintam em casa. É um trabalho logístico gigante, mas que fazemos com um sorriso no rosto
V.A: - O que podem esperar os visitantes da Feira da Tôr 2026?
A.P: - Podem esperar a melhor edição de sempre! De 4 a 6 de setembro, teremos uma montra fantástica da nossa melhor gastronomia local, artesanato autêntico, tasquinhas dinâmicas e a vertente desportiva com a 2ª edição do "Tôr em Movimento" (com Trail de 20km e Caminhada de 10km) no dia 5 de setembro. E, claro, um cartaz musical de enorme impacto. É uma feira com alma, feita com pessoas da Tôr para receber toda a gente de braços abertos.
V.A: - O nome dos Xutos & Pontapés trás visibilidade à Feira da Tôr, mas também algumas críticas. Como responde às dúvidas levantadas sobre esta escolha?
A.P: - Com total serenidade e foco nos resultados. Trazer a maior e mais mítica Banda de Rock portuguesa, os Xutos&Pontapés à Tôr, é uma aposta arrojada, mas estratégica. As críticas e o debate político fazem parte da democracia, mas a nossa resposta é prática: este concerto coloca a Tôr no mapa nacional. Vai atrair milhares de visitantes que, de outra forma, talvez nunca viessem à nossa freguesia. O investimento feito reverte diretamente a favor da nossa terra, trazendo uma projeção e um orgulho que a Tôr merece há muito tempo.
V.A: - Qual a importância deste certame para a economia local, para as associações e para a promoção da freguesia?
A.P: - Esta Festa é o pulmão financeiro e promocional da nossa freguesia. Para os produtores locais, artesãos e comércio, representa uma oportunidade de negócio única para escoar produtos e faturar. Para as nossas associações, as receitas obtidas nas tasquinhas são o combustível indispensável para manterem as suas atividades sociais, desportivas e culturais vivas durante o resto do ano. A Feira da Tôr não é uma despesa; é um investimento direto na economia, na identidade e no orgulho da nossa comunidade.
Por Nathalie Dias


