Ricardo Proença Gonçalves é licenciado em Gestão de Empresas e Pós-Graduado em Gestão de Unidades de Saúde e Finanças, pela Faculdade de Economia da Universidade do Algarve. Detém também um Executive Program em Controlo de Gestão e Avaliação de Performance pela Nova SBE. É igualmente membro efetivo da Delegação Regional do Algarve da Ordem dos Economistas.

Longos e perdidos na memória são os dias de paz económica no mundo, e graças à globalização (para o bem e para o mal) nenhuma economia mundial está a salvo de qualquer choque externo oriundo dos atuais conflitos geopolíticos mundiais.

No ano de 2025, segundo a The Economist, Portugal foi a economia com melhor desempenho, ultrapassando até a vizinha Espanha. De facto, os grandes indicadores macroeconómicos e projeções económicas, apontam para um caminho de crescimento económico em Portugal, e o grande impulsionador deste fenómeno é aquilo que tem sido o principal motor da economia portuguesa na última década: o turismo.

Há dois anos atrás, afirmei que a diversificação económica do Algarve era um desígnio que não podia ficar apenas projetado no papel. Não só por questões de “preservação” de uma boa performance em indicadores macroeconómicos, mas sobretudo numa ótica de se melhorar, principalmente, os indicadores de bem-estar real na vida das pessoas que residem na região.

É sabido que sempre que existem choques externos na economia portuguesa, as vulnerabilidades estruturais do Algarve veem ao de cima.

Foi assim na crise de 2008, alimentada pelos empréstimos hipotecários de alto risco nos Estados Unidos da América e que se alastrou por diversas economias europeias, causando quebras no Produto Interno Bruto (PIB), e desemprego crónico até meados de 2014.

Foi assim quando surgiu em 2020 a pandemia da Covid-19, que de forma abrupta, parou muitas atividades económicas pelo país e no caso do Algarve, o turismo com o seu peso relevante na economia regional, foi das atividades mais afetadas, originando uma grande disrupção das dinâmicas sociais na região.

Os atuais conflitos geopolíticos, têm uma componente diferente, mas ainda assim, gradualmente sentem-se os seus efeitos a chegar, sendo que o aumento dos preços do petróleo e do gás natural são o principal gatilho para um potencial impacto na inflação que até à data vinha a ser controlada.

Esta sucessão de choques externos geopolíticos, energéticos e financeiros têm um impacto na estabilidade que é uma condição necessária nas economias para que estas possam efetivamente planear o seu futuro.

Nos últimos 15 anos, houve sempre situações que causaram choques externos na economia portuguesa, desviando o foco do essencial: planeamento estratégico económico a longo prazo.

No caso do Algarve, sendo que a diversificação económica não é apenas desejável, é estruturalmente necessária, toda esta instabilidade mundial constante, torna esta pretensão utópica.

Não tem sido por escassez de recursos financeiros que não se tem diversificado mais a economia do Algarve, mas sim pela recorrente ausência de execução de um modelo económico de crescimento conexo, integrado e compartilhado que vise melhorar o perfil de especialização económica da região.

Existem planos para a diversificação da economia do Algarve, sendo que se encontram diversas áreas de intervenção identificadas que podem alavancar a economia regional, todavia, destaco duas áreas que poderiam ter um impacto relevante na região e que poderiam pôr o setor público e privado a “remarem” para o mesmo lado numa proveitosa sinergia.

A primeira área de intervenção, é o alargamento das Áreas de Acolhimento Empresarial (AAE) e modernização da rede de AAE existente. A construção de novas AAE e a revitalização da capacidade instalada na região, atrairia novos investimentos e capacitaria o ecossistema empresarial instalado.

Porém, para as AAE se desenvolverem na região, seria necessário que os Planos Diretores Municipais (PDM) de muitos municípios algarvios estivessem atualizados, para assim se adequar o modelo territorial às necessidades atuais de investimento.

A segunda área de intervenção, passaria pelo reforço efetivo das Energias Renováveis. Aqui somos uma região que possui vantagens competitivas e potencialidades que não podem ser desperdiçadas. Desde logo, a elevada exposição solar providencia uma capacidade fotovoltaica sólida, que poderia tornar as infraestruturas públicas e edifícios na região autossuficientes e mais resilientes.

O setor das renováveis não é por si só uma solução automática nem suficiente para a diversificação económica da região, pois o seu sucesso depende de uma abordagem estratégica integrada no ecossistema empresarial e com outros setores, para se diminuir assim a dependência dos combustíveis fosseis, e claro está, reduzir a exposição a choque externos como os que se sentem atualmente.

É importante também garantir que estes investimentos tenham ligação com a economia local, possuam retorno direto para as comunidades e que haja planeamento territorial rigoroso para não se desvalorizar a principal indústria exportadora da região (turismo).

As consequências económicas oriundas dos conflitos geopolíticos estão aí, e sentem-se no nosso quotidiano. Os diagnósticos estão há muito feitos, e as receitas para se melhorar são conhecidas.

Fica a questão no ar: estará o Algarve preparado para esta persistente volatilidade mundial?