Os avanços da Inteligência Artificial (IA) estão a levar várias empresas a repensar o seu futuro. Enquanto, por um lado, esta tecnologia pode dispensar alguma mão de obra, por outro, exige trabalhadores mais qualificados para as suas funções. Neste contexto, as empresas encontram-se sob enorme pressão para apresentar um desempenho sustentado, enquanto as suas ambições estão em risco devido a uma força de trabalho esgotada e a um desalinhamento organizacional.
Esta é uma das principais conclusões da 11ª edição do estudo Global Talent Trends 2026, da Mercer, empresa do grupo Marsh (NYSE: MRSH). Este estudo foi realizado junto de cerca de 12 mil executivos de topo, responsáveis de recursos humanos, investidores e colaboradores a nível mundial.
Em comunicado, Joana Fernandes, Líder de Career da Mercer Portugal, destaca que “os líderes estão empenhados no crescimento este ano, mas, para o alcançar, as organizações precisam de que todas as equipas tenham um desempenho máximo”, acrescentando que, “embora os executivos vejam a IA como a chave para desbloquear um desempenho exponencial e um crescimento acelerado, a concretização de um verdadeiro retorno dos investimentos em IA depende da reformulação intencional do trabalho e da criação de modelos operacionais habilitados para a IA que ampliem as capacidades e a experiência da força de trabalho”.
Cerca de 72% dos investidores inquiridos concordam que as empresas que integram competências humanas e IA estão bem posicionadas para obter vantagem competitiva. Estes investidores demonstram-se ainda disponíveis para recompensar essas organizações que tiram proveito da eficaz colaboração entre humanos e IA.
Escassez de talento como maior desafio
A falta de talento preocupa 54% dos executivos de topo, que identificam este problema como o principal fator que influencia os seus planos de recursos humanos, e 59% dos líderes de RH, que apontam como maior desafio a dificuldade em atrair talento com competências digitais essenciais.
Os avanços da IA no meio laboral têm vindo a criar a necessidade de requalificação e reafetação e, para isso, quase a totalidade dos executivos inquiridos (98%) revela estar a planear fazer alterações na estrutura organizacional nos próximos dois anos. Durante esse período, 65% desses executivos esperam que a IA obrigue a reafetar ou requalificar a força de trabalho das suas empresas em 11% a 30%.
No que respeita a executivos de topo, estes revelam-se prontos para reforçar a aposta nas competências. Cerca de 63% concordam que precisam de avançar para práticas de gestão de talento baseadas em 'skills'.
Já os colaboradores também se mostram conscientes de que precisam de melhorar e requalificar as suas competências, sendo que mais de metade (53%) demonstra mesmo uma certa preocupação com essa falta de competências preparadas para o futuro. Já no que toca a um hipotético aumento salarial de 10%, 63% dos colaboradores revelaram que trocariam esse aumento por oportunidades para desenvolver competências digitais e em IA.
Também a larga maioria dos investidores (77%) admite poder investir em empresas empenhadas em capacitar os colaboradores através de educação e formação em IA.
Desconexão entre equipas pode comprometer crescimento
O desalinhamento entre colaboradores, diretores e RH pode colocar em risco o desempenho máximo das empresas. Apenas 44% dos colaboradores indicam que estão a prosperar no trabalho, o que representa um declínio face aos 66% de 2024, e 40% assumem-se preocupados com a perda de emprego devido à IA, um aumento de 12% em relação a 2024.
Esta força de trabalho esgotada, marcada pelo “FOBO” (‘fear of becoming obsolete’ – medo de se tornar obsoleta), ameaça a produtividade das organizações, uma vez que não consegue manter um desempenho sustentado.
Impacto da IA na saúde dos trabalhadores
Cerca de 62% dos colaboradores afirma que os líderes das empresas não dão o devido valor ao impacto emocional da IA e apenas 19% dos responsáveis de RH consideram esses impactos como parte da sua estratégia de implementação digital. Caso os líderes não abordem estas situações, a ansiedade poderá comprometer seriamente a produtividade dos trabalhadores.
A principal prioridade da maioria dos executivos de topo (63%) passa por reestruturar o trabalho para incorporar IA e automação, enquanto os RH priorizam a melhoria da experiência dos colaboradores. Já 82% dos diretores executivos inquiridos acredita que o futuro da função de RH reside na gestão conjunta do talento humano e dos agentes digitais.
Líderes menos confiantes no sucesso da era homem-máquina
Atualmente, apenas 51% dos líderes da direção executiva acreditam que a sua organização está bem preparada para ter sucesso nesta inovadora era de trabalho, menos 14% que em 2024. Quanto aos investidores, 83% reconhecem que as empresas lideradas por executivos adaptáveis e resilientes terão um desempenho superior ao dos seus pares durante a disrupção, embora a formação de líderes resilientes e com fluência digital continue a ser um grande desafio.
Nesta nova era todas as competências são importantes, devendo ser complementadas por conhecimentos digitais. No entanto, os executivos priorizam mais competências como a gestão de risco e a estratégia, enquanto os colaboradores valorizam qualidades como a comunicação e a empatia.
"(...) Num futuro impulsionado pela IA, as organizações que assentarem as suas transformações em princípios centrados no ser humano serão vencedoras”
Joana Fernandes, Líder de Career da Mercer Portugal
Neste momento, 75% dos líderes já reconhecem a necessidade de “digitalizar” as suas empresas, embora só 30% considerem a sua agilidade digital elevada. Torna-se, por isso, essencial colmatar esta lacuna.
“Os líderes não carecem de visão, uma vez que já estão a desenhar o futuro e têm acesso às tecnologias e aos 'insights' necessários para transformar as suas organizações. O desafio agora é a execução em grande escala. Porque, num futuro impulsionado pela IA, as organizações que assentarem as suas transformações em princípios centrados no ser humano serão vencedoras”, conclui Joana Fernandes.
Idealista News


