Os resultados dos exames nacionais voltaram a lançar um sinal de alerta que não pode ser ignorado. No exame nacional de Português do 12.º ano, a média desceu de 12,6 para 11,4 valores. Ao mesmo tempo, a percentagem de classificações negativas aproximou-se dos 30%, quando no ano anterior rondava os 20%. Também a Literatura Portuguesa registou uma quebra preocupante, passando de 10,6 para 9,6 valores, tornando-se a única disciplina com média negativa.
Os números são importantes, mas aquilo que representam é ainda mais preocupante. A língua portuguesa não é apenas uma disciplina. É o principal instrumento através do qual pensamos, comunicamos, interpretamos o mundo e preservamos a memória coletiva de Portugal. Quando os resultados descem de forma consistente, não estamos apenas perante um problema educativo. Estamos perante um problema cultural.
É fácil culpar os telemóveis, as redes sociais ou a inteligência artificial. Não há dúvida de que todas estas tecnologias disputam diariamente a atenção dos alunos, muitas vezes com enorme sucesso. Mas seria demasiado cómodo concluir que aí reside toda a explicação. A escola deve também perguntar a si própria se está verdadeiramente a criar leitores e escritores ou se, pelo contrário, está apenas preocupada em cumprir programas.
Ao longo da minha experiência como professor tenho encontrado alunos provenientes de diferentes escolas que chegam ao final do ensino secundário confessando, por vezes até com alguma naturalidade, nunca terem lido uma obra completa durante todo o secundário. Esta realidade deveria inquietar-nos muito mais do que qualquer descida de uma ou duas décimas na média de um exame. Uma escola pode ensinar gramática sem formar leitores, mas nunca formará verdadeiros utilizadores da língua portuguesa se não criar o hábito da leitura.
Estou convencido de que existem práticas relativamente simples capazes de produzir resultados muito significativos. Algumas delas fazem já parte do meu trabalho diário em sala de aula.
Uma dessas práticas consiste em reservar momentos exclusivamente dedicados à leitura e à escrita silenciosas. Ler exige tempo. Escrever exige tempo. Pensar exige silêncio. Quando os alunos dispõem de uma aula em que simplesmente leem, sem interrupções constantes, ou escrevem com tempo para organizar as ideias, a relação com a língua transforma-se profundamente. Não considero esse tempo um intervalo no programa. Considero-o o momento em que o programa ganha verdadeiramente vida. Uma percentagem das aulas de Português deveria ser dedicada a este exercício de concentração, de reflexão e de crescimento intelectual.
Outra prática que procuro desenvolver consiste em dedicar os primeiros minutos de cada aula ao enriquecimento do vocabulário. A apresentação, explicação e utilização de cerca de dez palavras novas permite que, ao longo de um ano letivo, cada aluno contacte com centenas de novos vocábulos. O resultado torna-se visível na qualidade da escrita, na compreensão dos textos e na capacidade de argumentação. A riqueza de uma língua mede-se também pela riqueza do vocabulário dos seus falantes, e essa riqueza pode e deve ser ensinada de forma sistemática.
Mas há um terceiro aspeto que considero absolutamente decisivo: devolver os grandes autores aos jovens. A escola deve proporcionar o contacto com escritores que moldaram a nossa cultura e a cultura ocidental, autores que atravessaram séculos porque continuam a falar da condição humana. Camões, Padre António Vieira, Almeida Garrett, Antero de Quental, Eça de Queirós, Fernando Pessoa, Sophia de Mello Breyner, Vergílio Ferreira ou José Saramago devem conviver naturalmente com Homero, Virgílio, Dante, Cervantes, Shakespeare, Victor Hugo, Charles Dickens, Fiódor Dostoiévski, Lev Tolstói ou Mark Twain. Não se trata de ler tudo, nem de transformar a escola numa maratona de clássicos. Trata-se de despertar nos jovens o gosto por autores que continuam a ensinar coragem, liberdade, amizade, sentido de justiça, espírito crítico e humanidade. Uma vez criado esse gosto, muitos continuarão a ler por iniciativa própria, e essa será talvez a maior vitória que um professor de Português pode alcançar.
Naturalmente, indicar um autor ou uma obra não basta. A leitura tem de ser acompanhada. A verificação semanal do progresso de cada aluno, através de pequenas conversas, reflexões escritas ou questões colocadas em aula, cria compromisso e transforma a leitura num hábito. Aquilo que é acompanhado tende a ser realizado. Aquilo que nunca é acompanhado acaba, demasiadas vezes, por nunca acontecer.
Ao longo dos séculos, Portugal afirmou-se também pela força da sua língua. Camões deu-nos uma epopeia, Vieira uma extraordinária capacidade oratória, Eça refinou a crítica social e Fernando Pessoa demonstrou até onde a língua portuguesa pode chegar quando encontra um génio literário. Não podemos aceitar que as novas gerações concluam a escolaridade obrigatória sem descobrirem a beleza, a riqueza e a profundidade desse legado.
Os resultados dos exames devem preocupar-nos. Mas preocupar-nos ainda mais deve ser a possibilidade de estarmos a formar jovens que leem menos, escrevem menos e conhecem menos palavras do que as gerações que os antecederam. Felizmente, ainda vamos a tempo de inverter esta tendência. Não existem soluções milagrosas, mas existem boas práticas. E muitas delas começam por devolver às aulas de Português aquilo que nunca deveria ter perdido espaço: tempo para ler, tempo para escrever, tempo para pensar e tempo para descobrir a extraordinária riqueza da nossa língua.


