Jean Carlos Vieira Santos | Professor Universitário | svcjean@yahoo.com.br

A leitura da obra “Turismo Literário: construção e exploração de roteiros”, de Silvia Quinteiro e Maria Almeida, elucidam com primor o momento em que a hospedagem se transforma em narrativa. O livro sintetiza a evolução do ato de viajar, pois o hotel abdica de sua função meramente utilitária e passa a integrar, de forma ativa, a história vivenciada e compartilhada pelo viajante.

            Em uma viagem convencional, o meio de hospedagem se restringe ao repouso; contudo, a perspectiva das autoras revela que, no turismo literário, a atmosfera, o mobiliário e as pareces dos estabelecimentos possuem identidade própria. O hóspede não apenas ocupa o quarto, por interagir com o mesmo espaço físico outrora habitado por escritores que se tornaram referências. Dessa maneira, o hotel ganha alma e assume o papel de personagem na jornada do viajante.

            Nesse cenário, o turismo de massa é substituído por indivíduos que buscam conexões profundas com os destinos. Sob a ótica da obra, os hotéis literários se sobressaem como recônditos imersivos, capazes de sintonizar o público com o universo dos livros. Geralmente situados em zonas históricas, tais estabelecimentos se diferenciam pelo resgate da memória, ao preservarem os segredos dos aposentos onde grandes obras foram concebidas.

            Mais do que simples meios de hospedagem, as referidas estruturas funcionam como autênticos “lugares de texto”, espaços reais eternizados na ficção e memória dos viajantes. Inspirado pelas premissas de Quinteiro e Almeida, visitei o The Literary Manem Óbidos, considerado o hotel mais literário do mundo, devido às paredes revestidas de livros e a uma biblioteca feita de infinito, ao passo que, no Brasil, conheci a Pousada Literária de Paraty. Ambos os locais me transmitiram a essência da viagem literária, em virtude das novas experiências de leitura em cidades que dialogam irretocavelmente com a palavra escrita.

            De fato, a vivência confirmou que o trunfo de tais ambientes reside na capacidade de romper as próprias barreiras físicas. Ao promoverem tertúlias, jantares conceituais, lançamentos de livros e itinerários urbanos guiados, esses hotéis expandem fronteiras de quem se propõe viajar para ler. O tempo em Óbidos e Paraty transformou as viagens em uma extensão prática e viva da teoria de Quinteiro e Almeida – como visto, meu passaporte merecia os carimbos desses destinos literários.