Poucos lugares no mundo concentram tantos séculos de disputa, comércio e tensão estratégica como o Estreito de Ormuz. Esta estreita passagem marítima - com apenas cerca de 33 km no seu ponto mais estreito - liga o Golfo Pérsico ao Oceano Índico e continua, cinco séculos depois, a ser uma das artérias vitais do comércio mundial de energia. Hoje, cerca de 20% do petróleo transportado globalmente atravessa este corredor marítimo, transformando Ormuz num dos epicentros geoestratégicos do planeta. A relevância contemporânea desta região, remonta ao início do século XVI, quando Afonso de Albuquerque colocou Ormuz no mapa da política global, com a construção do Forte de Nossa Senhora da Conceição, concluído em 1515, na ilha de Ormuz, atual Irão.
Em 1507, o Estado português encontrava‑se em plena expansão no Oceano Índico. Com uma visão estratégica incomum para a época, Afonso de Albuquerque percebeu que o controlo do comércio oriental só seria possível através da posse dos principais “estrangulamentos marítimos” - portas obrigatórias para as grandes rotas da Ásia. Nessa lógica Albuquerque liderou a ofensiva que resultaria na conquista de Ormuz, obtendo a submissão do soberano local e colocando o estreito sob influência portuguesa. A partir daí, articulou-se um triângulo estratégico composto por: Ormuz, dominando a entrada do Golfo Pérsico; Bab el‑Mandeb, controlando o acesso ao Mar Vermelho; Malaca, garantindo a ligação ao Sudeste Asiático. Este sistema permitiu a Portugal vigiar navios, impor taxas e assegurar o monopólio das rotas comerciais entre a Ásia e a Europa. Os ecos desta estratégia foram de tal forma profundos que ainda hoje influenciam a perceção geopolítica do estreito. O jornal Le Figaro (10 .03. 2026) recorda Albuquerque como precursor do controlo desta “artéria vital do comércio mundial”.
Ao longo dos séculos XVII a XX, Ormuz manteve um estatuto de corredor sensível. Com o crescimento da importância do petróleo no século XX, a região tornou-se um ponto de fricção entre potências globais. A chamada “guerra dos petroleiros”, na década de 1980, durante o conflito Irão‑Iraque, é um exemplo emblemático: navios comerciais e petroleiros foram repetidamente atacados, obrigando à intervenção militar dos Estados Unidos. Ormuz consolidou-se como um ponto onde segurança energética e rivalidade geopolítica se cruzam - que continua bem presente no século XXI. Em março de 2026, por exemplo, o Irão anunciou o fecho temporário da passagem, ameaçando atacar qualquer embarcação que tentasse atravessá-la. Vários navios comerciais foram atingidos e vários tripulantes perderam a vida, elevando o risco de crise energética global. Segundo especialistas, esta estratégia iraniana visa aumentar a pressão internacional num contexto de conflito regional, manipulando o peso geopolítico do estreito. Em paralelo, o Le Figaro sublinha que a administração norte‑americana tem assumido uma postura particularmente firme, alertando que qualquer tentativa de bloqueio poderá desencadear resposta militar direta. Assim, a geopolítica de Ormuz permanece profundamente marcada por dois fatores constantes: a dependência mundial do petróleo e gás que ali circulam; a rivalidade entre o Irão e os Estados Unidos, frequentemente ampliada por tensões regionais mais amplas. Hoje, tal como no século XVI, o Estreito de Ormuz continua a provar que pequenas geografias podem ter impactos imensos na economia mundial, na segurança internacional e no equilíbrio geopolítico. É esta continuidade histórica que torna tão pertinente revisitar as raízes portuguesas deste estreito e compreender o seu papel atual.


