Mas o ponto alto da noite foi a atuação de Badoxa, que lotou o recinto com uma multidão de adolescentes, os seus maiores seguidores. Ao subir ao palco, o artista exclamou: “Eu já morei aqui”, galvanizando ainda mais o público quarteirense.
Badoxa: da capoeira no Algarve ao reconhecimento nacional e internacional
Edgar Silva Correia, conhecido artisticamente como Badoxa, nasceu em Portimão, Algarve, em 1992. Filho de pai cabo-verdiano e mãe angolana, é um embaixador cultural que personifica a rica influência da música lusófona contemporânea, unindo a herança africana à sua profunda ligação com Portugal.
As primeiras notas: capoeira e percussão
A carreira artística de Badoxa começou aos 8 anos, com a capoeira no Algarve. Além de disciplinar o corpo e a mente, aprendeu instrumentos como o berimbau, o atabaque e o pandeiro. A dedicação ao ritmo e à voz da capoeira valeu-lhe a conquista de um campeonato de canto em 2003, um prenúncio do seu destino. A verdadeira mudança musical ocorreu em 2004, quando assistiu a uma banda ao vivo pela primeira vez. Esse momento levou-o a experimentar a percussão e a integrar a banda “Kalulu”. Em 2006, o músico angolano Xico Barata convidou-o para turnês por Portugal, uma experiência que se revelou um mestrado intensivo.
Formação e primeiros passos a solo
Em 2007, com uma viola acústica, aprofundou os seus conhecimentos em guitarra e piano sob a tutela de nomes como Joaquim Brandão, Zé Manel Martins, Tuka Moura e Xico Barata. Esta formação eclética solidificou a sua destreza instrumental e proporcionou-lhe uma compreensão profunda da teoria musical, harmonia e composição. A partir de 2009, Badoxa aventurou-se na produção e composição das suas próprias músicas. A colaboração com G-Amado e Micas Cabral (Tabanka Djazz) a partir de 2010 foi um ponto de viragem, expondo-o a uma audiência mais vasta. Em 2012, realizou os seus primeiros espetáculos a solo como cantor, com os singles “Tás Maluca” e “Amor” a abrirem portas em casas de espetáculo nacionais e internacionais.
“Minhas Raízes” e o sucesso com “A Única Mulher”
O lançamento do seu primeiro álbum a solo, “Minhas Raízes”, em março de 2014, com apenas 22 anos, foi a concretização de um sonho. O álbum, que misturava Kizomba, Semba, Zouk e Tarraxinha, gerou sucessos como “Mulher Perfeita” (com G-Amado) e “Controla”. A inclusão de ambos os temas na banda sonora da novela popular “A Única Mulher” catapultou Badoxa para o reconhecimento nacional.
Discografia e evolução artística
A discografia de Badoxa inclui o aclamado “Memórias” (2016) e o mais recente “Retrato” (2023) . Singles como “Demónio da Tarraxinha” (2017) , “Minha Mulher” (2019), “Mulher Africana” (2022) e os lançamentos mais recentes “Adoçare” (2024) e “Contigo” (2025) mostram a sua capacidade de se reinventar e de se manter no topo. A sua música é uma fusão envolvente de coladeira, tarraxinha, kizomba, semba e zouk , que o tornou um dos artistas mais reconhecidos no panorama nacional e internacional. As suas letras abordam o amor, relacionamentos, empoderamento feminino e celebração da cultura africana: “Mulher Perfeita”, “Minha Mulher” e “Mulher Africana” são hinos que glorificam a figura feminina.
Palco, digressões e impacto cultural
No palco, Badoxa é uma força da natureza. A sua energia é contagiante, garantindo uma ligação imediata com o público. Marcou presença em grandes eventos e festivais por todo o país, com destaque para o concerto no Campo Pequeno, que levou a arena ao rubro, e a performance em Paris, onde se sentiu “em casa” a cantar para as comunidades portuguesas e africanas. Badoxa representa a nova geração de artistas lusófonos que capitalizaram o poder da internet e das redes sociais para levar a sua cultura além-fronteiras. A sua música é uma ferramenta de união, celebrando a diversidade e a afirmação de uma identidade cultural rica e complexa.
“Brincalhão 24 horas”, mas com visão e responsabilidade
Com mais de uma década de carreira, Badoxa define-se como uma pessoa “brincalhona 24 horas por dia”, mas também com uma nova visão e mais responsabilidade, um equilíbrio que se reflete na sua música. O seu futuro promete continuar a ser pautado pela evolução e pela exploração de novas “misturas”. Badoxa é muito mais do que um artista de sucesso: é um elo entre culturas, uma voz que canta a diversidade, o amor e as raízes que nos definem. A sua música é um convite à dança, à celebração e ao reconhecimento de uma identidade lusófona rica e plural. Continua a deixar a sua marca duradoura na música e na cultura lusófona.
Jorge Matos Dias





