Entre a lógica das plataformas digitais e o desafio pedagógico, a sociedade enfrenta um dilema: como promover o diálogo e a cooperação num ecossistema que recompensa o conflito? Na verdade, vivemos numa era em que a tecnologia, muito particularmente a inteligência artificial (IA), redefine não apenas a forma como comunicamos, mas também o tempo e o modo como aprendemos, pensamos, trabalhamos e interagimos. As redes sociais, impulsionadas por algoritmos de IA, tornaram-se o palco privilegiado para a circulação de ideias — mas também para a propagação do ódio e da polarização. O conteúdo que viraliza por excelência é o polarizador, o polémico, o que expressa ódio e agressividade — uma espécie de ódio desenhado por encomenda. Nesta perspetiva, estamos perante uma realidade inquietante: as plataformas digitais foram desenhadas para maximizar o tempo de utilização e a interação, e os algoritmos privilegiam conteúdos que geram emoções fortes, sobretudo indignação e raiva. E, a culpa, não é da IA que, só por si, é imparcial. Mas o uso que dela fazemos pode não o ser, como aliás se alerta neste texto.
Este fenómeno tem consequências profundas na esfera política e social. A lógica algorítmica, orientada para métricas de aliciamento e de retenção da atenção, amplifica mensagens simplistas e extremadas, marginalizando o detalhe, a reflexão e o pensamento crítico. O resultado é um espaço público fragmentado, onde a confiança nas instituições se deteriora e a capacidade de diálogo se esvai. A radicalização não é um acidente; é um efeito colateral do modelo de negócio que sustenta a economia digital. No campo pedagógico, o desafio é igualmente complexo. Professores e outras agentes com papel ativo na educação, nem sempre adotam. soluções pedagógicas que promovam o diálogo, a reflexão, a real interpretação das motivações dos comportamentos violentos. Ao invés de fomentarem a compreensão das causas — sociais, económicas, psicológicas —, muitas abordagens limitam-se a reagir à superfície do problema. Esta lacuna é agravada pelo ecossistema digital, que recompensa respostas rápidas e simplistas, em detrimento da análise crítica.
Que fazer perante este cenário? A resposta exige ação em três frentes: educação, design algorítmico e política pública. Mais do que proibir, porque nada resolve, é urgente promover práticas pedagógicas que cultivem pensamento crítico e literacia digital, ensinar a reconhecer padrões de manipulação e criar espaços para diálogo construtivo. Ao mesmo tempo, as plataformas devem assumir maior responsabilidade, introduzindo mecanismos de transparência e fricção que desincentivem a viralização tóxica. A este propósito, os decisores políticos precisam de estabelecer normas que conciliem inovação tecnológica com coesão social. O ódio por design, ou encomenda, não é inevitável. Mas combatê-lo implica compreender que a tecnologia não é neutra: ela molda comportamentos, influencia perceções e redefine a própria democracia. Cabe-nos, enquanto sociedade, garantir que essa influência serve a reflexão e a convivência — e não a polarização e o ódio.




