Por: Padre Carlos Aquino | effata_37@hotmail.com

“Não deram por nada até que veio o dilúvio”

Entre as muitas tentações espirituais que atravessam os séculos, uma das menos compreendidas e talvez das mais presentes em nosso tempo é a acédia. Os Padres do Deserto a chamavam de “o demônio do meio-dia”, aquela espécie de torpor da alma que chega quando o sol está mais alto e a rotina pesa sobre o espírito. Hoje, embora vivamos cercados de estímulos, notícias e tarefas, a acédia continua a se manifestar, só que de formas mais sutis: o desânimo crônico, a fuga das responsabilidades espirituais, a falta de sentido e, sobretudo, a indiferença. A acédia não é apenas tristeza ou cansaço. É uma espécie de anestesia interior, que nos faz perder o entusiasmo pelo bem e a atenção ao próximo.

O seu terreno fértil é a pressa e o excesso, que nos fazem sobreviver, mas não viver; correr, mas não enxergar. E é justamente nesse ponto que a acédia se encontra com a crise moral do nosso tempo: a indiferença social. Quando já não choramos diante da miséria, quando nos acostumamos à violência, quando as injustiças viram estatísticas repetidas, mas não sentidas, algo essencial está adoecendo em nós, dentro de nós. A acédia espiritual se transforma não raras vezes em anestesia social. Sem perceber, deixamos de agir, de nos compadecer e de comprometer. Tornamo-nos espectadores de um mundo ferido, quando o Evangelho nos chama a ser fermento de transformação. Falamos zangados sobre a realidade presente, mas sem coragem de uma audácia profética e de agir com esperança. Cristo, ao longo dos Evangelhos, nunca foi indiferente.

Ele viu Zaqueu na árvore, tocou no leproso, dialogou com a samaritana, chorou com Marta e Maria. O olhar de Jesus nunca passou indiferente pelas dores humanas. E é justamente esse olhar atento, presente, misericordioso, que a acédia tenta apagar em nós. Ela sussurra: “não adianta”, “é assim mesmo”, “não é problema teu”. Mas o cristão sabe que todo o sofrimento humano, mesmo distante, é sempre um convite de Deus à compaixão. Superar a acédia não significa multiplicar ativismos ansiosos, mas recuperar a capacidade de amar. Significa reencontrar um coração desperto, sensível à voz de Deus e às necessidades dos irmãos. A oração, a caridade concreta, a vida comunitária e a contemplação são antídotos poderosos contra a indiferença porque nos reconectam com a fonte do amor divino. O oposto da acédia não é o frenesim, mas a fidelidade.

É levantarmo-nos cada dia com a disposição humilde de fazer o bem possível, ainda que pequeno, confiando que Deus multiplica gestos simples em frutos eternos. É recordar que não estamos no mundo para passar, mas para servir; não para observar, mas para cuidar. Num tempo marcado pelo isolamento, pela pressa e pela saturação de problemas globais, o cristão é sempre chamado a ser sinal de esperança, “sal da terra e luz do mundo”. E isso começa com um passo silencioso, quase impercetível, mas profundamente revolucionário: não permitir que o nosso coração se torne indiferente. É preciso dar pelo que acontece e saber ler os sinais da presença de Deus neste tempo onde somos convidados a amar.