“Os últimos serão os primeiros”
Esta frase está no Evangelho como uma espécie de pedra no caminho. Foi colocada para nos fazer tropeçar. Para interromper a marcha apressada com que tantas vezes atravessamos a vida, convencidos de que sabemos quem vale mais, quem merece mais, quem chegou mais longe, quem ganhou, quem perdeu. Porque a nossa sociedade sabe muito bem quem são os primeiros. São os que aparecem. Os que têm poder. Os que acumulam. Os que vencem. Os que ocupam lugares de destaque. Os que conseguem fazer ouvir a sua voz numa sala cheia. Os que têm um nome reconhecido, um cargo importante, uma conta bancária confortável, uma fotografia nas páginas certas. E sabemos também, embora nem sempre gostemos de o admitir, quem são os últimos. São aqueles que esperam. Esperam por um emprego.
Por uma oportunidade. Por uma consulta. Por alguém que lhes telefone. Por uma palavra de reconhecimento. Esperam nos corredores dos hospitais, nas filas dos serviços públicos, nas margens das cidades. Esperam, muitas vezes, que alguém repare que existem. Há também os últimos invisíveis: o idoso que passa dias sem receber uma visita; a mãe que faz contas à mesa para que a comida chegue até ao fim do mês; o trabalhador que chega a casa exausto e continua sem saber se o salário será suficiente; o jovem que olha para o futuro e não encontra lugar para si; aquele que perdeu quase tudo e já nem sabe como pedir ajuda. E há ainda os últimos que ninguém vê porque aprenderam a sorrir. É diante destes que a frase de Jesus ganha uma força desconcertante. Porque talvez Jesus não esteja simplesmente a prometer aos derrotados uma futura compensação. Há algo muito mais profundo nessa inversão. O Evangelho está a dizer-nos que a dignidade de uma pessoa não se mede pelo lugar que ocupa na fila do mundo. E isto muda tudo. Nós confundimos facilmente valor com posição. Pensamos que subir é valer mais. Que estar à frente é ser melhor.
Que ser reconhecido é ser importante. Construímos uma espécie de ranking secreto das pessoas e, sem darmos por isso, começamos a medir também a nossa própria vida pela posição que ocupamos nele. Mas diante de Deus a lógica é outra. O homem que chega depois pode ser mais rico de humanidade do que aquele que chegou primeiro. A mulher que ninguém escuta pode ter dentro de si uma grandeza que nenhum título consegue traduzir. Aquele que parece ter falhado pode ter amado mais do que aquele a quem todos chamam vencedor. Talvez seja isso que nos perturba tanto no Evangelho: Deus não olha para nós como olha o mundo. Nós olhamos para o currículo. Deus olha para o coração. Nós contamos propriedades, prémios, sucessos, seguidores, cargos, influência. Deus talvez conte gestos que ninguém contabilizou: a mão que se estendeu quando não era obrigada a fazê-lo; o pão repartido; o perdão concedido; a visita feita a quem estava sozinho; a paciência de quem cuidou durante anos sem receber aplausos; a fidelidade silenciosa de quem continuou a amar quando já não havia recompensa.
No fundo, esta frase, não é apenas uma promessa dirigida aos últimos. É também uma advertência dirigida aos primeiros. Talvez seja aí que o Reino de Deus começa. Não quando os últimos finalmente ocuparem o primeiro lugar. Mas quando deixarmos de precisar que alguém fique em último para podermos sentir que somos primeiros. E talvez essa seja a verdadeira revolução do Evangelho: descobrir que, diante de Deus, a grandeza não está em estar acima dos outros. Está em ser capaz de descer até eles. Porque, às vezes, para encontrar o primeiro lugar, é preciso finalmente aprender a ficar ao lado de quem ficou para trás.


