Margarida Correia, Presidente da União de Freguesias de Querença, Tôr e Benafim, durante três mandatos consecutivos, conclui agora um ciclo de 12 anos de serviço autárquico marcado pela dedicação e entrega total. No início do seu percurso, enfrentou o grande desafio da agregação das três freguesias, conduzindo esse processo com determinação.

Já na fase final do seu último mandato, viveu o momento inverso, preparando a desagregação da União de Freguesias. Na última edição da Feira da Tôr e em jeito de despedida, foi surpreendida com uma sentida homenagem, um vídeo com vários testemunhos que enaltecem não só o trabalho desenvolvido ao longo dos três mandatos, mas também a dimensão humana de Margarida Correia, reconhecida pelo empenho, proximidade e dedicação às pessoas. Foram 12 anos de entrega total a uma causa comum, que deixou marca na história desta União de Freguesias.

 

«Foram 12 anos de entrega total. Saio de consciência tranquila»

 

V.A – Depois de três mandatos, que balanço faz destes 12 anos?

M.C – Foram três mandatos muito diferentes. O primeiro foi, de longe, o mais difícil por não ter maioria na Assembleia de Freguesia e pelo papel do “Movimento de Independentes” que não nos facilitou a vida e seguramente pela minha inexperiência. A agregação das freguesias não foi desejada pela população e a minha presença na Tôr e Benafim gerou desconfiança inicial. Tive de aprender, de ouvir e de trabalhar muito para criar proximidade e confiança. Foi um período de “arrumar a casa”, organizar uma entidade nova e respeitar o que já existia em cada freguesia.

Com o tempo, formámos uma equipa sólida, estruturada e comprometida. A proximidade com as pessoas tornou-se a base de tudo. Sinto que dei tudo o que tinha. Saio de consciência tranquila.

 

«A desagregação deixa um sentimento agridoce»

 

V.A – Como viveu o processo de desagregação da União de Freguesias?

M.C – Com um misto de compreensão e frustração. Compreendo o valor emocional e identitário que cada freguesia tem e a vontade de voltar à autonomia. Mas deixa-me um sentimento de frustração porque muito do trabalho feito para consolidar uma única estrutura vai perder continuidade. Havia processos, recursos e dinâmicas que funcionavam justamente por estarmos unidos. Gerir três juntas separadas, com menos meios humanos e materiais, vai ser mais difícil. O tempo dirá se esta foi a decisão mais acertada.

Portanto, a Presidente não é contra a desagregação. A Presidente, neste momento, tem um sentimento de frustração de que fez um trabalho para um objetivo e que esse trabalho muito dele foi um trabalho inútil, que não vai ser aproveitado. Não há continuidade desse trabalho.

 

V.A – Quais foram os principais investimentos realizados ao longo destes anos?

M.C – Investimos nas pessoas, desde logo. Apostámos na infância e na cultura, com aulas gratuitas de teatro nas escolas, espetáculos anuais e um trabalho contínuo com a companhia Ao Luar Teatro. Criámos o apoio à natalidade, atualmente fixado em 2.000 euros por criança.

Ao nível do território, requalificámos arruamentos, caminhos rurais, espaços públicos e património religioso; adquirimos maquinaria, veículos e equipamento necessário para autonomia da União de Freguesias; reforçámos a capacidade operacional; e criámos resposta logística própria para eventos.

A Feira da Tôr, relançada com uma nova dimensão cultural e económica, tornou-se um dos projetos estruturantes. É mais do que festa: movimenta economia local, envolve associações, produtores, restaurantes e atrai milhares de pessoas.

 

«Há projetos estruturantes que ficaram por fazer»

 

V.A – Que projetos ficaram por concretizar?

M.C – Há três áreas essenciais que não avançaram como desejava. Projetos que só seriam possíveis com o empenho da Câmara Municipal de Loulé. Todos sabemos que quando a Junta não é da mesma cor política existem entraves, estes projetos foram sempre referenciados ao longo destes 12 anos e o que é certo é que eles não aconteceram. Não foi por falta de dinheiro, foi por falta de vontade política.

Habitação – Sem lugar para viver, não há população. No interior, isto é crítico.

Requalificação do campo da Tôr – Um espaço com enorme potencial desportivo e comunitário, que nunca avançou.

Espaços de lazer em Querença e Benafim, capazes de acolher atividades comunitárias de maior dimensão.

Não foi por falta de vontade ou trabalho — foi por limitações de enquadramento e, em alguns casos, falta de alinhamento político.

 

V.A – Como foi a relação com a população durante estes 12 anos?

M.C – Foi um trabalho de proximidade diária. Estive sempre presente no terreno. Nunca houve alguém que não conseguisse falar comigo. Ou resolvia, ou dizia honestamente quando não era possível resolver. Essa frontalidade foi essencial para construir confiança.

Claro que houve momentos difíceis. Houve palavras que magoaram. Houve feridas que ainda tenho de sarar. Mas o balanço é profundamente positivo. A homenagem inesperada na última Feira da Tôr foi um dos momentos mais marcantes da minha vida pública. Desarmou-me por completo.

 

V.A – Como conciliou a Presidência da União de Freguesias com a vida familiar?

M.C – Com muita dificuldade. A minha filha tinha dois anos e meio quando comecei. Se não fosse o apoio da minha família e do meu marido, não teria sido possível. Ele foi muitas vezes pai e mãe ao mesmo tempo. A minha filha tornou-se muito autónoma e isso acabou por ser uma aprendizagem positiva. Mas houve ausências que doeram. Entrei neste projeto de alma e coração, e isso tem custos.

 

V.A – E agora? Está preparada para novos desafios autárquicos?

M.C – Sim, se fizer sentido e se for útil ao território. A minha ligação a este lugar é profunda. Aceitei integrar uma lista para a Câmara Municipal de Loulé porque acredito que posso contribuir com a experiência adquirida e com a forma como trabalho com equipas e com as pessoas. Mas antes, preciso de parar, respirar, reorganizar e recuperar. Foram 12 anos muito intensos.

 

V.A – Que mensagem gostaria de deixar às populações de Querença, Tôr e Benafim?

M.C – A minha palavra é gratidão. Gratidão às equipas, com destaque para o Fábio Guia em Benafim e o Manuel Gaspar na Tôr, aos colaboradores, às associações, aos voluntários, às famílias, aos amigos e a todas as pessoas que caminharam comigo. Este território tem força e futuro. Estarei sempre por aqui. Continuarei a apoiar, a colaborar e a acompanhar. Não vou para longe. Este território permanece o meu lugar.

 

Veja a Entrevista em Vídeo e na Integra no Jornal A Voz do Algarve

Por: Nathalie Dias