Loulé quer levar a Cultura para uma nova dimensão e colocou oficialmente o concelho na corrida a Capital Portuguesa da Cultura 2028, apresentando uma candidatura que pretende ultrapassar a lógica de um programa cultural concentrado num único ano. A proposta assenta no trabalho desenvolvido pelo município nos últimos anos, na Estratégia Municipal da Cultura 2034 e numa visão de futuro que procura envolver as diferentes comunidades do concelho e reforçar a ligação entre Cultura, território, turismo e desenvolvimento regional.
A candidatura foi apresentada em agosto e conta como embaixadores com três nomes ligados às artes e à cultura portuguesa: a escritora Lídia Jorge, o músico Dino D’Santiago e o encenador Ricardo Neves-Neves. A proposta conta ainda com o apoio institucional de entidades como a Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Algarve (CCDR Algarve), a Região de Turismo do Algarve, a AMAL – Comunidade Intermunicipal do Algarve e a Universidade do Algarve.
Mais do que conquistar um título, a candidatura pretende afirmar Loulé como um território onde a Cultura assume uma função estruturante e onde a programação cultural pode contribuir para a valorização do concelho e da região ao longo de todo o ano.
O presidente da Câmara Municipal de Loulé, Telmo Pinto, tem defendido precisamente essa dimensão regional da candidatura, sublinhando a intenção de mostrar que o Algarve possui uma dinâmica cultural que não se limita à época turística. A proposta pretende, assim, contribuir para uma nova perceção do território algarvio, promovendo a Cultura como elemento de identidade, participação e desenvolvimento.
Uma candidatura construída para além de 2028
Um dos aspetos centrais da proposta é a ideia de que a eventual atribuição do título deverá ser entendida como uma oportunidade para consolidar um caminho já iniciado e não como um acontecimento isolado.
A Estratégia Municipal da Cultura 2034, construída através de um processo participativo iniciado em 2024, constitui uma das bases da candidatura. O documento pretende orientar a política cultural municipal para os próximos anos, envolvendo agentes culturais, associações, instituições e comunidades.
Segundo o município, este trabalho tem sido acompanhado por um reforço do apoio à atividade cultural e associativa. Um dos indicadores apresentados é o crescimento do número de associações culturais apoiadas no concelho, que passou de 19, em 2013, para 42 em 2026.
A candidatura procura, desta forma, apresentar uma Cultura que não fique limitada aos grandes equipamentos ou aos acontecimentos de maior dimensão, mas que esteja presente nas freguesias, nas associações, nas escolas, nas comunidades e nos diferentes espaços do território.
A diretora municipal da Cultura, Dália Paulo, tem igualmente defendido esta perspetiva de continuidade, considerando que o trabalho desenvolvido deverá produzir resultados independentemente do resultado final do concurso.
Um investimento que ultrapassa a programação cultural
A candidatura está associada a um conjunto significativo de investimentos municipais na área cultural e na qualificação dos equipamentos. A intenção é criar melhores condições para a produção e apresentação artística, recuperar património e criar novos espaços capazes de acolher programação durante todo o ano.
Entre os projetos associados à estratégia cultural encontram-se intervenções em Loulé e Quarteira, incluindo a valorização do património histórico e a criação ou requalificação de espaços destinados à cultura.
A estratégia cultural está também ligada à valorização do Geoparque Algarvensis, que envolve os municípios de Loulé, Silves e Albufeira e que integra a Rede Mundial de Geoparques da UNESCO, constituindo outro dos elementos destacados no âmbito da candidatura.
No conjunto, a proposta apresentada pelo município associa a programação de 2028 a uma visão mais abrangente de investimento cultural, procurando que os equipamentos e infraestruturas permaneçam ao serviço das populações depois de terminado o ano da Capital Portuguesa da Cultura.
Uma candidatura com dimensão regional
Outro dos elementos diferenciadores da proposta é a tentativa de ultrapassar os limites administrativos do concelho.
O apoio manifestado pela CCDR Algarve e pela Região de Turismo do Algarve reforça precisamente esta dimensão. Em setembro, uma conferência de imprensa realizada em Loulé juntou o presidente da Câmara Municipal, Telmo Pinto, o presidente da Região de Turismo do Algarve, André Gomes, o presidente da CCDR Algarve, José Apolinário, e o vice-presidente da CCDR Algarve para a área da Cultura, Bruno Inácio.
Na ocasião, José Apolinário destacou a importância de uma ação cultural alinhada com os valores europeus e o caráter regional da candidatura.
A intenção passa por utilizar a candidatura para reforçar a cooperação entre municípios, instituições culturais, agentes económicos, universidades e estruturas ligadas ao turismo, procurando que a Cultura seja também um instrumento de valorização do Algarve enquanto território.
Esta dimensão regional ganha particular importância num território fortemente marcado pela atividade turística. A proposta de Loulé pretende apresentar uma imagem do Algarve associada não apenas ao sol e à praia, mas também à criação artística, ao património, à literatura, à música, às artes performativas, às tradições e à contemporaneidade.
Três embaixadores para uma candidatura com diferentes áreas artísticas
A escolha de Lídia Jorge, Dino D’Santiago e Ricardo Neves-Neves pretende igualmente representar diferentes linguagens e experiências da cultura portuguesa.
Lídia Jorge, uma das mais reconhecidas escritoras portuguesas contemporâneas e com uma forte ligação ao Algarve, representa a literatura e a criação literária. Dino D’Santiago acrescenta à candidatura uma dimensão musical marcada pela diversidade cultural e pelas ligações entre diferentes comunidades. Ricardo Neves-Neves, dramaturgo e encenador, representa o teatro e as artes performativas.
A presença dos três embaixadores pretende reforçar a ligação entre Loulé e diferentes áreas da criação contemporânea e contribuir para a projeção nacional da candidatura.
O que está agora em jogo
A candidatura de Loulé integra um concurso nacional que, para 2028, coloca os municípios perante um processo de avaliação com critérios definidos pelo Governo. Entre os aspetos considerados pelo júri estão a estratégia cultural de longo prazo, a qualidade, coerência e inovação do programa artístico e cultural, o potencial de legado cultural, social e económico, a capacidade de execução, a sustentabilidade financeira e o modelo de governação.
A candidatura de Loulé será analisada juntamente com as propostas dos restantes municípios concorrentes. A decisão será tomada por um júri independente e está prevista para 9 de dezembro de 2026. A iniciativa terá uma dotação financeira estatal de um milhão de euros para a edição de 2028, sem prejuízo dos investimentos que venham a ser assegurados pelo município e por entidades parceiras.
Para Loulé, contudo, o processo pretende deixar resultados para além da decisão final. A candidatura funciona também como uma oportunidade para apresentar o trabalho cultural desenvolvido no concelho, consolidar uma estratégia para os próximos anos e reforçar a cooperação regional.
Se conquistar o título, 2028 será o momento de concretizar uma programação de grande dimensão. Mas a verdadeira aposta apresentada pelo município é mais longa: usar a Cultura como instrumento permanente de valorização das pessoas, do património e do território e reforçar o papel de Loulé e do Algarve no mapa cultural nacional.
A cidade escolhida para Capital Portuguesa da Cultura em 2028 vai ser conhecida no dia 23 de março de 2027.





