Há um instante silencioso que se repete sempre que chego a Loulé. É aquele momento em que a luz toca a calçada com uma delicadeza antiga, como se fosse possível ouvir a respiração, o pulsar da cidade. É um detalhe minúsculo, insignificante para quem passa, mas que para mim diz tudo: diz pertença, diz memória, diz futuro.
Porque Loulé é isto — uma terra que se sente antes de se compreender. Que nos acolhe como se sempre tivesse guardado um lugar para nós, mesmo quando andamos perdidos entre tanta promessa adiada.
E talvez seja por amar tanto esta terra que sinto, agora mais do que nunca, a necessidade de falar com clareza, mas também com o respeito que se deve ao que é nosso.
Falo como deputada municipal, sim, mas também — e sobretudo — como cidadã que acredita na capacidade de Loulé para ser mais do que tem sido.
Ao longo dos últimos doze anos, fomos governados com calma e prudência. Em certos momentos, foram virtudes. Noutros, tornaram-se limites. Não vivemos crises profundas; mas também não vimos voos altos. Não houve rupturas; mas também não houve rasgo. Loulé seguiu vivendo de uma espécie de conforto gerido, de uma estabilidade que não compromete — mas que tão pouco projeta.
A verdade é simples: não bastou.
Não é suficiente para aquele que continua a ser um dos concelhos com maior potencial do país — potencial humano, territorial, económico, cultural, ambiental.
E esse potencial, apesar de tão evidente, foi sendo empurrado para amanhã, para depois, para quando “o tempo permitir”. E o tempo, ao contrário do que tantas vezes se pensa, não espera.
Hoje temos um executivo recém-empossado, com pouco mais de um mês de mandato. Seria injusto, irresponsável até, exigir resultados imediatos ou criticar intenções antes de serem reveladas. Todos os novos mandatos merecem o primeiro voto de confiança — aquele que nasce não da ingenuidade, mas da maturidade democrática.
Mas sim, há esperança. E sim, é possível que este novo ciclo, mesmo dentro da continuidade partidária, traga um impulso que os anos anteriores não tiveram.
Mas a esperança não deve nunca ser sinónimo de permissividade.
E é aqui que o meu compromisso com Loulé fala mais alto do que qualquer alinhamento político.
Este executivo sucede diretamente a doze anos de gestão da mesma família política. Não chega dizer “somos novos". É preciso ser novo. É preciso pensar diferente, agir diferente, decidir diferente. É preciso não repetir a confortável rotina que marcou o passado recente.
E acima de tudo: não podemos permitir que a esperança se transforme num cheque em branco.
A confiança não é passaporte para mais do mesmo. É ponto de partida para fazer melhor.
O potencial que ficou por cumprir — e o que ainda podemos construir.
Quando penso no que perdemos, penso sempre no que ainda podemos ganhar.
Vejo jovens que querem ficar — mas não encontram onde viver.
Vejo empresas com ideias — mas sem espaço para crescer.
Vejo freguesias com história — mas sem investimento que as faça florescer.
Vejo o litoral vibrante — mas sem uma estratégia que o oriente.
Vejo o interior resiliente — mas sem políticas que o revitalizem.
E, sobretudo, vejo pessoas. Pessoas que trabalham, acreditam, esperam. Pessoas que amam esta terra tanto quanto eu.
Não há crítica mais honesta do que a que nasce do amor.
E é exatamente por amar Loulé que me recuso a aceitar que o futuro seja sempre adiado.
Precisamos de visão na habitação, inteligência no ordenamento, coragem na mobilidade, ambição na economia local, firmeza na proteção ambiental, sensibilidade na cultura. Precisamos de políticas que criem vida onde hoje só há boas intenções. Precisamos de escolhas — as difíceis, as profundas, as que realmente transformam.
Escrevo este texto num lugar que fica algures entre a esperança e o ceticismo.
Ambos são legítimos. Ambos são necessários.
A esperança dá-nos propósito.
O ceticismo dá-nos lucidez.
E o dever — esse dá-nos coragem.
Não escrevo contra este executivo. Escrevo a favor de Loulé. E escrevo também a favor da responsabilidade que cada governante — seja qual for o partido — deve ter perante a sua terra: a responsabilidade de não desperdiçar mais tempo.
Porque Loulé não é só um concelho bonito. É um concelho possível.
Um concelho com futuro — se houver vontade de o construir.
E é isso que peço, com serenidade mas com firmeza: vontade.
Não peço revoluções. Peço visão.
Não peço milagres. Peço trabalho real.
Não peço promessas. Peço compromisso.
E peço, sobretudo, que se tenha consciência de que cada escolha — ou ausência dela — molda o lugar onde viverão os nossos filhos, os nossos netos, as nossas memórias.
Que este novo ciclo seja o despertar. Que seja a prova de que podemos acreditar, mas sem fechar os olhos.
Que seja o momento em que Loulé deixa de sobreviver do seu encanto — e passa finalmente a crescer pelo seu mérito.
Porque amar Loulé não é celebrá-la quando tudo está bem.
É cuidar dela quando pode — e deve — ser melhor.
E Loulé, esta terra luminosa que nos habita, merece sem dúvida ser melhor.
E merece agora!




