O Município de São Brás de Alportel manifesta o seu profundo pesar pelo falecimento de Alberto Francisco do Espírito Santo Fernandes, figura marcante da vida cívica, política e associativa do concelho, cuja morte representa uma perda significativa para a comunidade são-brasense.

Alberto Francisco do Espírito Santo nasceu a 5 de setembro de 1953, filho de Alberto Caeiro Fernandes e de Angelina Adelaide de Melo Araújo Espírito Santo. Viveu uma união de 52 anos com Maria Alice Ribeiro de Sá Teixeira Fernandes, com quem casou e construiu a sua família, mantendo sempre uma forte ligação aos valores humanos, à liberdade e ao compromisso com o bem comum.

Homem de causas e de liberdade, deixou, na terra onde escolheu viver, as marcas da sua singular personalidade, da sua cultura e acima de tudo da sua bondade.

Concluiu o Curso de Regente Agrícola da Escola Superior Agrária de Santarém, que após a revolução do 25 de Abril, mudou de designação para Engenharia Técnica Agrária. Ao longo de uma vida muito preenchida desenvolveu diversos trabalhos, tendo concluído o seu percurso profissional ao serviço do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF).

A sua vida foi marcada por questões políticas, muito antes do 25 de Abril, uma vez que o seu pai foi preso pela PIDE, aos 17 anos enquanto militar, no Forte da Trafaria, em Almada, e considerado como extremista. Com a condição de estar permanente e regularmente vigiado por alguém da PIDE, conseguiu, mais tarde, emprego na Federação Nacional dos Industriais da Moagem, um organismo de coordenação económica.

Relacionou-se com pessoas com pontos de vista diferentes das ideologias do Estado Novo, assistiu a filmes e leu livros diferentes, alguns proibidos na altura, como a literatura marxista.

A 3 de fevereiro de 1973, acabou por sair do país, juntamente com a sua mulher. Alugaram uma avioneta para ir até Évora e foram para Argel, capital da Argélia, onde se encontraram com diversas personalidades, como Manuel Alegre e a sua esposa Mafalda Ferreira, Fernando Piteira Santos, Stela Piteira Santos, Germano da Costa, entre outros. De Argel foram para a Holanda onde nasceu o filho mais velho.

No dia 25 de Abril, encontrava-se a residir em Amesterdão. Meses depois, a 8 de julho de 1974, regressaram a Portugal, pela fronteira de São Gregório, e fixaram-se no Norte do País, em Pevidém, localidade do Município de Guimarães.

Teve uma ligação política à organização OCMLP (Organização Comunista Marxista-Leninista Portuguesa), que publicava o jornal “O Grito do Povo”. A OCMLP tinha como organização legal a FEC (M-L), Frente Eleitoral dos Comunistas (marxistas-leninistas), que concorreu às eleições constituintes de 1975, tendo feito esta campanha eleitoral em Celorico de Basto, onde existia um ambiente difícil, com as sedes dos partidos de esquerda a serem incendiadas e os seus simpatizantes e militantes perseguidos até casa pelas pessoas de direita, o que não os impediu de ajudarem as populações e promoverem a cultura local, com a criação de um rancho folclórico e de um grupo de teatro, que escrevia as suas próprias peças.

O pós 25 de Abril permitiu que o povo tivesse tomado as rédeas do país nas mãos. Na altura da manifestação da “Maioria Silenciosa”, no dia 28 de setembro de 1974, encontrava-se no Norte, tendo-se juntado no Porto para a realização de barricadas, que consistiam numa operação stop para verificar a carga transportada por cada carro, nomeadamente armas e explosivos, deixados passar pela PSP sem verificação.

Nos finais de 1975, regressaram ao Algarve, a Faro, uma vez que tinham cá os avós e os sogros. Os sogros viviam em Faro, sendo o sogro, entre 1972 e 1977, o Veterinário Municipal de Faro e São Brás de Alportel. A esposa foi estimulada a concluir o 7º ano e seguir para a universidade, vindo depois a dar aulas no Ensino Básico e Secundário, no Magistério Primário e depois na Universidade do Algarve.

Alberto Espírito Santo desempenhou funções, durante três meses, como tarefeiro, na Reserva Natural do Sapal de Castro Marim e Vila Real de Santo António, seguindo-se as funções de guarda de matadouro e servente de limpeza do Matadouro de São Brás de Alportel, acabando por regressar à Reserva do Sapal, onde foi o primeiro técnico superior na primeira reserva criada em território português. Seguiu-se a Junta Nacional dos Produtos Pecuários de Faro e mais tarde passou para os Serviços florestais, que se ligaram ao ICNB e formaram o ICNF, onde esteve até à reforma.

Foi também dirigente regional do Sindicato da Função Pública da Zona Sul e Açores.

Sempre comprometido com a sua terra, integrou diversas associações, contribuindo para a Movimento Determinante (Associação de defesa e apoio dos cidadãos, com deficiência, seus cuidadores e amigos) e para Al-Portel (Associação de defesa do património cultural e ambiental). Na sua vida política local, integrou as listas da CDU em diversas eleições autárquicas, tendo sido cabeça de lista à Câmara Municipal em 2009.

O seu precoce falecimento constitui uma enorme perda para a vida cívica, política e social do concelho, deixando um legado de dedicação, coerência e intervenção ativa ao serviço da comunidade.

 

CM de São Brás de Alportel