Os sedimentos no fundo do mar constituem um importante reservatório de carbono orgânico. Restos de plantas e animais, bem como matéria transportada a partir de terra, depositam-se no fundo marinho e parte desse carbono pode permanecer aí enterrado durante séculos. Compreender onde este carbono se concentra é, por isso, importante para conhecer melhor o ciclo do carbono nos oceanos e avaliar os potenciais impactos das atividades que perturbam o fundo do mar.
Publicado na revista científica Global Biogeochemical Cycles, o estudo reúne 50 541 medições de carbono orgânico em sedimentos marinhos, provenientes de diferentes regiões dos mares europeus, desde o Ártico ao Mediterrâneo e ao Mar Negro. A partir destes dados, os investigadores combinaram informação sobre habitats, tipos de sedimento e condições ambientais e recorreram a técnicas de machine learning para identificar os principais fatores associados à distribuição do carbono.
Os resultados mostram que um conjunto relativamente reduzido de condições físicas explica grande parte da variação observada. A exposição à ondulação revelou-se o fator mais importante, responsável por cerca de 32% da variação, seguida pela disponibilidade de luz (14%), pela geomorfologia do fundo marinho (10%) e pela temperatura máxima da água junto ao fundo (9%). No conjunto, o modelo explicou cerca de 53% da variabilidade observada.
“Esperávamos que o carbono se acumulasse em locais mais calmos. O que nos surpreendeu foi perceber até que ponto o padrão observado à escala de todo um continente pode ser explicado por um conjunto reduzido de condições físicas”, afirma Jorge Assis, investigador do CCMAR. “O facto de a exposição à ondulação, por si só, explicar cerca de um terço da variação é particularmente útil, porque permite mapear estas condições em todo o lado, incluindo grandes extensões do fundo marinho onde nunca foram recolhidas amostras.”
Os resultados indicam que os sedimentos localizados em zonas costeiras e mais abrigadas, sujeitas a menor exposição à ondulação, tendem a apresentar maiores teores de carbono orgânico. Foram identificadas áreas com valores elevados em partes do Mar Báltico, Mar do Norte, Mar Adriático, Mar de Barents e Mar Negro. Os habitats com vegetação também se destacaram: os sedimentos associados a presença de Posidonia oceanica apresentaram, em média, os teores de carbono mais elevados entre as classes de sedimento analisadas, seguidos por outras pradarias marinhas, sedimentos lodosos e sedimentos mistos.
O CCMAR contribuiu para o estudo através da análise, modelação e cartografia ambiental. Entre os dados utilizados encontram-se variáveis provenientes do Bio-ORACLE v3.0, uma base de dados global de informação ambiental marinha que inclui, entre outros, dados de temperatura, salinidade, velocidade da água, transparência e oxigénio. O código utilizado na modelação está aberto e acessível publicamente.
A análise permitiu produzir uma estimativa da distribuição do carbono orgânico nos sedimentos à escala dos mares europeus, incluindo áreas onde existem poucas ou nenhumas amostras. O modelo é, contudo, mais adequado para identificar padrões regionais do que para fazer previsões ao nível de locais específicos, onde a variabilidade das condições ambientais e biológicas pode ser muito elevada.
Os resultados do estudo são importantes, na medida em que podem contribuir para o planeamento e conservação do espaço marinho, nomeadamente para avaliar os potenciais impactos de atividades que perturbam os sedimentos, como a pesca de arrasto pelo fundo e as dragagens. Os autores salientam, contudo, que o carbono não deve ser considerado isoladamente na definição de prioridades de conservação, devendo ser ponderado em conjunto com a biodiversidade, as pressões humanas e outros fatores ecológicos.
O estudo foi liderado pela Universidade de Aarhus, na Dinamarca, e reúne investigadores de quatro países europeus: Dinamarca, Noruega, Portugal e Reino Unido. O trabalho integra o projeto europeu MPA Europe, cofinanciado pela União Europeia através do programa Horizonte Europa, que procura reforçar a base científica para o planeamento de áreas marinhas protegidas nos mares europeus.
Sobre o estudo
Lønborg, C., Graversen, A. E. L., Addamo, A. M., Assis, J., Burrows, M. T., Stewart, E., Lillis, H., Costello, M. J., & Krause-Jensen, D. (2026). Drivers and Patterns of Sediment Organic Carbon in European Regional Seas. Global Biogeochemical Cycles, 40, e2026GB009100. Publicado a 16 de agosto de 2026.
DOI: 10.1029/2026GB009100
Link: https://agupubs.onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1029/2026GB009100
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