Dr.ª Irina Mendes Martins – Deputada Municipal

Celebrámos na Quinta-feira de Espiga, 14 de Maio, o Dia do Município, e há datas que servem para mais do que içar bandeiras e repetir discursos: servem para parar e perguntar, com honestidade, o que é que estamos verdadeiramente a celebrar. A resposta, julgo, não está nos relatórios de mandato, mas em algo mais difícil de medir e bem mais fácil de perder.

Há terras que se habitam e há terras que se sentem. Loulé é destas últimas. Não se explica Loulé apenas com mapas, números ou estatísticas de desenvolvimento — explica-se com a memória de quem aqui nasceu, com o cheiro a figo maduro no fim do Verão, com o som do mercado de sábado a acordar a cidade, com a maneira como, ao virar de uma esquina, encontramos sempre alguém que nos cumprimenta pelo nome.

E talvez seja por aí que se deva começar: por essa proximidade que nos define. Loulé é, em rigor administrativo, um dos maiores concelhos do Algarve. Estende-se da costa à serra, abraça freguesias diferentes entre si, recebe gente de todo o mundo. Mas, no fundo, continua a ser provinciano no melhor e mais bonito sentido da palavra. Tratamo-nos pelos nomes. Conhecemo-nos. Sabemos quem é filho de quem, quem abriu aquela loja, quem ainda trabalha a terra na encosta. Numa época em que tantas cidades cresceram até ao anonimato, Loulé teve a sabedoria — ou a teimosia — de não perder o rosto das suas gentes.

A geografia foi generosa connosco, e nem sempre damos por isso. Em poucos minutos podemos sair da frescura da serra, das aldeias caiadas, dos medronheiros e das ribeiras, e descer até à luz do mar, às praias de Quarteira e Almancil, à brisa salgada que muda tudo. Esta proximidade entre dois mundos — o do interior, mais quieto e enraizado, e o do litoral, mais cosmopolita e em movimento — não é apenas uma curiosidade paisagística. É uma forma de estar.

Quem vive em Loulé aprende cedo a transitar entre estes dois ritmos. Há o tempo da serra, que ensina paciência, que respeita as estações, que ainda sabe o nome das plantas. E há o tempo do mar, que traz o mundo até nós, que abre portas, que nos lembra de que não somos uma terra fechada. A qualidade de vida que tanto se elogia por aqui nasce, em boa parte, deste equilíbrio: ter o melhor dos dois sem ter de escolher.

Costuma dizer-se que Loulé é o coração do Algarve, e a expressão não é mero exagero local. Estamos no centro de tudo: a meia distância de Faro e do aeroporto, da fronteira espanhola e da costa vicentina, das praias e das montanhas. Esta centralidade dá-nos algo precioso — a possibilidade de viver com calma sem viver isolados. Podemos ter uma vida pacata, de raízes fundas, e ainda assim estar a um passo de tudo o que o mundo tem para oferecer.

É um privilégio discreto, deste tipo que só se valoriza verdadeiramente quando se sai e se regressa. Quem parte de Loulé e volta percebe rapidamente o que tem. Percebe que a luz é diferente. Que o silêncio das ruas ao fim da tarde tem qualidade. Que se pode ir a pé a tudo o que importa. Que há um café onde nos conhecem o gosto antes de o pedirmos.

Mas nada disto — nem a serra, nem o mar, nem a centralidade — faria de Loulé o que é sem as suas gentes. É a generosidade de quem cá vive que dá alma ao território. É o mercado que junta produtores e vizinhos. São as procissões, as festas, o Carnaval que enche as ruas, o Festival MED que faz da cidade, por uns dias, um cruzamento de culturas e de músicas do mundo, a Mãe Soberana que faz subir a colina meio concelho. São os comerciantes de sempre que resistem, os agricultores que ainda acreditam na terra, os jovens que decidem ficar e construir aqui o seu futuro.

Há uma hospitalidade louletana que não se aprende em manuais. É feita de gestos pequenos: a porta que se deixa aberta, o cumprimento na rua, o vizinho que pergunta como vão as coisas e espera mesmo pela resposta. Numa terra que cresceu, que se modernizou, que se abriu ao turismo e ao mundo, este modo de ser permanece como o nosso bem mais valioso. Porque uma boa qualidade de vida não se mede só em serviços, infraestruturas ou rendimento — mede-se na sensação de pertencer, de ser reconhecido, de fazer parte de uma comunidade que nos vê.

Dizê-lo com paixão não significa dizê-lo sem lucidez. O futuro coloca-nos perguntas difíceis. Como crescer sem perder a identidade? Como acolher quem chega sem esquecer quem sempre cá esteve? Como conciliar a pressão do turismo com o direito de quem aqui vive a uma habitação digna, a um centro vivo, a ruas que não se esvaziem fora de época? Como manter a serra povoada e o interior com futuro, e não apenas o litoral?

Estas não são questões abstractas nem ornamentos de discurso de efeméride. São o teste de cada decisão que se toma sobre esta terra — e é por elas, e não pelas fotografias dos dias de festa, que uma comunidade deve ser avaliada. A resposta, creio, está precisamente naquilo que nos torna diferentes: na proximidade, no conhecimento mútuo, na escala humana das coisas. Loulé só continuará a ser Loulé se quem decide não esquecer que governar é, antes de tudo, tratar as pessoas pelo nome.

Porque, no fim, é disto que falamos quando falamos de qualidade de vida. Não de um conceito de relatório, mas de uma forma de existir. De acordar e reconhecer a terra. De saber que se pertence a um lugar. De viver entre a serra e o mar, no centro de tudo, e sentir, ainda assim, que estamos exactamente onde devemos estar — em casa.