Na conferência que proferiu no Mosteiro de Nossa Senhora Rainha do Mundo, no Patacão, concelho de Faro, subordinada ao tema “São José, Esposo da Virgem Maria”, o padre António de Freitas começou por destacar o carpinteiro como “homem justo”. “Alguém justo é aquele que vive a partir de Deus e procura discernir o seu viver e o seu decidir segundo a vontade e o coração do Senhor”, explicou.
Considerando que “um homem justo” “é bastante diferente de ser um homem legalista”, o orador afirmou que “São José é aquele homem justo e bom que é capaz de olhar cada pessoa e cada situação em si mesma, sem simplesmente aplicar a regra de igual modo a tudo e a todos, sem mais”. “O homem justo que ele é (e que nos desafia a todos a sermos), é aquele que procura compreender os acontecimentos e situações da vida a partir do coração misericordioso de Deus, sem fechar as coisas e as pessoas, de modo definitivo, num beco sem saída”, sustentou.
“Eis-nos, então, diante de um grande desafio que a vida de fé de São José nos lança a cada um de nós que aqui está hoje: sermos justos, isto é, procurarmos discernir tudo segundo o olhar e o coração misericordioso de Deus, de modo que lhe sejamos agradáveis, sem os superficiais julgamentos, baseados numa verdade aparente, que tantas vezes pode condenar definitiva e fatalmente a vida do outro”, prosseguiu na palestra inserida no programa celebrativo do 50.º aniversário da fundação daquele Carmelo algarvio, um ciclo comemorativo iniciado em julho transato e que se estenderá até ao próximo dia 16 de julho.
O sacerdote realçou ainda São José como “o homem das decisões silenciosas”. “José é um homem do silêncio. Mas não se trata de um silêncio inoperante ou estéril: o silêncio é o ambiente de trabalho de São José”, clarificou, destacando a “capacidade de São José descobrir no silêncio o lugar por excelência das suas decisões, opções e ações”. “Foi o silêncio que permitiu Deus atuar e mudar o rumo das decisões de São José. No fundo, naquele silêncio de São José estava também uma profunda esperança e capacidade de espera na ação de Deus. E isto é um desafio tremendo para cada um de nós. Decidir silenciosamente as coisas da nossa vida, não como quem esconde estrategicamente algo uns dos outros, mas como quem quer dar espaço à maturação e à confiança na ação de Deus, é um dos desafios que São José nos deixa”, referiu.
Em terceiro lugar salientou São José como “o homem que sabe acolher os sinais de Deus”. “Houve em São José um coração disponível e uma mente permeável para estar atento aos sinais, acolhê-los e interpretá-los como verdadeiramente vindos da parte de Deus. Permanecendo no seu silêncio, procura compreender e aceita mesmo aqueles sinais como algo vindo da parte de Deus, colocando em prática o que aí lhe foi comunicado. E fá-lo porque, na verdade, é um homem de fé e que vive da fé”, valorizou, considerando que a fé “quando acolhida e vivida em profundidade”, gera “capacidade de acolher os sinais e acontecimentos da vida, vendo-os com o olhar de Deus”.
“A fé não é uma fuga do mundo. A fé é procurar compreender a ação e as manifestações de Deus no meio dos acontecimentos, mesmo aqueles mais inesperados e perturbadores (como sucedeu com São José) e extrair deles aquilo que vem da parte de Deus à nossa vida”, desenvolveu, acrescentando: “temos que ser pessoas atentas aos acontecimentos quotidianos das nossas vidas e também das vidas dos outros, para procurarmos compreender se nisso há algo que Deus possa estar a querer comunicar-nos à vida”.
Neste sentido, alertou que a vida não pode ser vista pelos cristãos “como uma mera sucessão de casualidades e coincidências”. “A nossa vida e os seus acontecimentos, são carregados de sinais da presença, da bondade e da ação do amor de Deus. Por isso, o coração e a mente daquele que vive da fé, têm que estar atentos aos sinais que o Senhor vai enviando à sua vida, para que esta, à imagem da vida de São José, procure sempre viver numa busca permanente de viver a vontade de Deus que, tantas vives se compreende nesta belíssima e necessária correlação entre a nossa interioridade e tudo quanto sucede nos nossos dias”, advertiu.
Em quarto lugar enfatizou São José como “o homem que vive no tempo e do tempo de Deus”. “José assume o tempo de Deus, e com o tempo a sua vontade e o seu projeto, como seus. Está todo nas mãos de Deus e deixa que seja Deus a decidir o tempo dos acontecimentos na sua vida. Isto é profundamente desafiante para a Igreja e para os cristãos de hoje, pois queremos que tudo aconteça segundo os nossos tempos e as nossas pressas”, referiu, considerando que esta disponibilidade para “fazer do tempo de Deus o seu tempo”, permite “ganhar raízes no projeto de Deus para a sua vida”.
“É o tempo de Deus, tornado nosso, que nos permite ganhar raízes naquilo para que Deus nos envia. E quando falo de raízes, refiro-me ao tempo necessário para aprofundar e enraizar a nossa vida naquela missão, naquelas pessoas, naquela situação a que Deus me envia, por meio da Igreja”, explanou.
Por fim, o padre António de Freitas disse que São José é “o homem do seguimento e do trabalho discreto”. “Na vida de fé e nas missões e serviços que Deus nos confia, a discrição não é apenas um mero exercício passivo de não aparecer ou ficar em segundo plano. Pelo contrário, é um exercício ativo de querer e tudo fazer para que seja sempre e em tudo somente Deus a aparecer e a se manifestar”, desenvolveu.
“Ser discreto não é um mero deixar-se apagar; é a opção consciente e livre de querer ficar sempre no meu lugar próprio (o último), querendo, deste modo, dar sempre a Deus o lugar central e aos outros o primeiro lugar. É no fundo, fazer a tomada de consciência viva de que nós nada somos; e, se alguma coisa tivermos de ser, só o poderemos ser, sendo-o em Deus”, completou, acrescentando: “no tempo em que há uma necessidade global de tudo se publicitar, fazer saber, apresentar e dar a conhecer, como que esperando o elogio ou a aprovação dos outros, São José torna-se, para todos nós, um apelo a vivermos em função da vontade do Pai, pois o Pai que vê o que está oculto, nos há de recompensar”.
Folha do Domingo


